sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Right, Left

Não se preocupem. Não se trata de um debate sobre a nova esquerda na América Latina ou o recrudescimento da direita na Europa. Não, não, não.
É mais simples. É mais uma cena urbana, que sempre me inquieta.
Há meses eu tinha notado a inconsistência dos avisos nas estações de metrô sobre qual elevador vai chegar primeiro.
'The lift on the left shall be the next lift."
Ai você corre para o lado esquerdo, dando uma de esperta, e espera.
Um segundo depois, "a locutora universal da tube station" dispara:
'The lift on the right shall be the next lift.'
Ok, minha filha, decida-se, eu disse a ela, irritada, na primeira vez em que ouvi a confusa informação.
Não adianta. Ela continua confundindo os pobres trabalhadores que, exaustos, querem voltar rápido para a casa e espremem-se na entrada da porta do elevador.
Mas qual? O da direita ou o da esquerda?
Nesta semana, o dilema voltou à tona, por vias indiretas.
Caminho da minha casa até a Caledonian Road Station. À minha frente segue uma velhinha, de vestido vermelho e bolero pretinho. Um escândalo de elegância. Aquelas roupas de missa, que a gente guarda mesmo para os domingos. Perfumadíssima, claro.
Chegamos à estação praticamente juntas. E eis que a locutora universal começa:
'The lift on the right...'
E a senhora se dirige para o elevador à direita.
Eu, descolada, fico no meio. Sempre.
Um segundo depois, as usual, a locutora muda de idéia:
'The lift on the left...'
A velhinha muda de lado.
Eu sigo no meio.
A locutora, volúvel, diz que agora quem chega primeiro é o da direita.
Cansada, a velhinha me olha com aquela carinha de 'what the hell'.
Eu não me aguento: solto uma gargalhada. Digo para ela que sempre tenho o mesmo dilema.
'You will never know. It is a sort of lottery.'
Chega o elevador da direita.
It doesn't matter. Estamos cansadas e entramos sem nos importar com o lado.
Mais ou menos como acontece na política.

sábado, 25 de julho de 2009

How can you survive?

Em um raro momento de privacidade, sábado de manhã e estou sozinha na Staveley Close. Fantastic. Posso tomar café com o som ligado e alto, posso assistir a vídeos estúpidos e morrer de rir. Falo sozinha com o locutor sem medo de ser observada.
Toca a campainha. Nem o Royal Mail vai atrapalhar meu momento intimista hoje, sério. Estou determinada. Mas parece ser algo diferente.
Tenho medo do golpe da Eletropaulo ou da Telefônica, mas rapidamente me dou conta de que não estou em São Paulo.
Abro a porta. Uma senhora de bengala, super simpática, me entrega um papel.
"Gostaria de lhe fazer esse convite", ela diz, após colocar o papel em minhas mãos.
Suavemente ela sorri, agradece, vira as costas e me deixa ali, sozinha, lendo o convite.
"How can you survive the end of the world? You are warmly invited to come and listen to the answer."


Wait a minute! No Bible. No preach. Just an invitation. Seriously?
Tenho vontade de gritar e pedir para ela voltar. Como assim ela bate sábado de manhã na minha porta, me diz que o mundo vai acabar, e me convida para uma reunião para saber quando e o que fazer? Nada pode ser mais angustiante.
Penso em pedir uma dica: vai acabar em que mês? Ano? Tem porta de emergência? Em que país é melhor estar para chegar mais rápido ao paraíso (se é que eu tenho alguma chance de entrar no paraíso)? Levo o sleeping bag comigo? Um casaco de lã? Cantil?
Fico perturbada, pois se a senhora foi tão simpática, não abriu a boca, e não tentou me vender bíblia é porque algo muito errado deve estar mesmo acontecendo no mundo. Pronto. O mundo vai mesmo acabar.

Presto atenção na foto do convite da Conferência das Testemunhas de Jeová. Parece que todos estão em um vale. Há uma nuvem negra enorme cobrindo o céu. Uma fila gigantesca de pessoas. Os que estão na frente sorriem e olham para o horizonte. Certamente estão vendo deus. Ou uma mesa de café da manhã linda, com frutas tropicais, cereais, pão fresco, café, pão de queijo, geléia, bolo de fubá, bolo de cenoura com chocolate, e essas coisas todas que qualquer paraíso que se preza deve ter.
Os do meio viram para trás e acenam para os do fundo, mas não parecem lá muito preocupados. Devem ter certeza que o paraíso fica aberto até mais tarde e vai dar tempo de chamarem a senha deles. Já os últimos da fila... Sinceramente. É de dar dó. Levam consigo uma cara de pânico, todos submersos naquela escuridão da enorme nuvem cinza no céu. Certamente vão dar com a cara na porta, porque o paraíso não funciona full time e tem hora para encerrar o café da manhã.
Procuro mais informações no meu folheto.
"Admission is free, and no collection are taken."
Agora tenho mesmo certeza. É o fim. Não vendem bíblia, não pregam, e não vão coletar o dízimo?????? Acabou. É a hora.
Checo os locais da conferência. Preciso de instruções, ora bolas!
Preocupada, coloco o folheto na bolsa e vou me encontrar com amigas no Portobello Market. Mostro a elas o folheto. Uma delas, iraniana, diz que deus pode ser tudo, inclusive uma "spoon". [Hã? Too much information in a Saturday morning.]
Ela me conta meio indignada que o namorado, italiano e católico fervoroso, acredita na virgindade de Maria. Difícil levar adiante conversas sobre religião.
Mas ela deixa uma pergunta intrigante no ar. Onde é que a Virgem Maria foi enterrada? Por que o corpo dela não foi preservado pela Igreja Católica para que pessoas incrédulas, como ela (que acredita no poder da colher), pudessem ver e pensar a respeito?
Não tenho resposta pra nada. Olho para a colher ao lado da minha xícara de chá. Pagamos a conta e resolvemos aderir ao protesto em prol da democracia no Irã, em frente à Embaixada do Irã em Londres.
É. Não há mais dúvida.
O fim do mundo não parece estar muito distante.

sábado, 18 de julho de 2009

About waste and recycling....

Eu não sei explicar o grau de indignação com o qual recebi a notícia de que 1.400 toneladas de lixo (TÓXICO E HOSPITALAR, INCLUINDO BOLSAS DE SANGUE) foram transportadas do Reino Unido e despejadas em três portos do Brasil.
Algumas hipóteses para tal sentimento:

a) Talvez porque durante este ano eu tenha estudado um pouco mais sobre a ação do Império Britânico e dos Estados Unidos na América Latina;

b) Talvez porque eu já sofria ao ler as sucessivas notícias sobre a "exportação" global de lixo dos países desenvolvidos para a África e pensava na incapacidade institucional do continente para reagir;

c) Talvez porque tenho tentado reciclar lixo por um ano na Inglaterra e tenho total consciência de como o sistema é desorganizado, incipiente, ineficaz, descuidado;

d) Talvez porque eu veja o descaso dos ingleses para reciclar lixo (eu moro com um, e ele é único que sistematicamente dá sinais de pouca ou nenhuma colaboração com a causa; já achei vários potes de vidro e plástico usados pela figura no lixo orgânico; o ser humano se recusa a jogar na sacola destinada ao recycling);

e) Talvez porque me irrita a calma do governo brasileiro, das instituições, e, sobretudo, da mídia. Por que o Lula não veio a público até agora criticar isso aberta e duramente? O Brasil não tem procurado se associar à África, no eixo sul-sul? Então, taí: bom momento para abrir a boca e criticar o "Império" por uma ótima causa; por que a mídia brasileira não considera o caso absolutamente prioritário e começa uma investigação sistemática e de qualidade?; se fosse o contrário, garanto que ia ter jornalista britânico batendo na porta do governo brasileiro dia após dia;

f) Talvez porque eu imagine o fim do mundo como o Cartoon do Wall-E. Só que, fora da ficção, não vai ter nenhum espaço para romance com Eva.

Se a gente não começar a pensar na questão do lixo seriamente AGORA, em qualquer país do mundo, certamente esse será o maior problema da humanidade no futuro. Indignação coletiva pode ser um primeiro passo.

domingo, 12 de julho de 2009

London, one year

Quando as pessoas mais próximas imaginam que haverá algum sofrimento por conta da distância, o consolo é imediato e sempre universal: "Passa rápido, você vai ver".
É estranho sentir-se de certa forma desolado quando você está partindo para um destino que escolheu, para uma aventura que almejava há tempos, para um projeto pessoal e profissional certamente enriquecedor. No entanto, o coração fica um tanto amiúde quando você sente a mais profunda solidão e ela começa a se manifestar logo após sua acomodação na poltrona da aeronave da Swiss Air.

10 de julho de 2008, a caminho de Guarulhos. Ele dirigia, eu chorava. Enquanto chorava, atendia aos telefonemas sucessivos das quatro irmãs e do único irmão. Depois, o adeus da mãe e do pai. Os amigos mais próximos também se despedem. Só escuto, porque o pranto é tanto que emudece. Tudo dá errado no aeroporto. Confusão na declaração do laptop e das "divisas" modestas que deixam o tão querido Brasil. A sorte fica por conta de um simpático funcionário da Receita Federal que, percebendo minha alteração psíquica, me ajuda a resolver toda a burocracia com um simples clique no teclado do computador. Dentro do avião, tudo parece estranho. O lugar é péssimo, aquele do meio, cinco poltronas grudadas. Assisto a um filme tão ridículo que até hoje sou incapaz de me lembrar do nome. Choro, lenta e intermitentemente. A aeromoça tenta falar alemão comigo e me irrita. Respondo em inglês. Ela coloca o jantar na minha mesa sem nem perguntar qual opção eu prefiro. Me irrito de novo e pergunto: o que temos para o jantar? Ela responde "massa" ou "carne". Eu revido: e isso que você colocou aqui é o que? Ela: massa. Eu: pois é, prefiro carne. Começo a sentir um leve preconceito vindo do mundo europeu. Me assusto com o que pode estar por vir.

11 de julho de 2008, London City Airport
: Sarah Rink me busca do aeroporto. Não sei dizer o que seria de mim sem o carinho desta amiga no meu primeiro dia em London. Me sinto em casa, de alguma forma. Ela me leva para a casa dela. No dia seguinte, Ian, que se transformou em outro amigo querido, gentilmente aluga um carro e me leva para a residência estudantil. Anne Stephenson Hall. O nome que me perseguirá por quase três meses. Pânico na chegada. Desespero ao mirar o quarto minúsculo, o armário minúsculo, o meu lar tão minúsculo e tão vazio de gente.

10 e 11 de julho de 2009: Passei os dias em casa, trabalhando na minha tese. Tomei café da manhã com Sarah, a flatmate italiana. Chove e faz sol em Londres. Normal. Mas o verão enche as almas de alegria. Não sofro de ficar em casa. Tenho um trabalho a terminar. Tenho um objetivo. E, um ano depois, entendo os altos e baixos da solidão.

My balance:
- Um corte gigante no queixo;
- A primeira "bladder infection" da vida;
- Quatro ou três quilos a menos (finalmente, já era hora!);
- Anna, Catia e, recentemente, Sarah;
- Sarah e Ian, sempre;
- Vanessinha, Jogurt e Cles, e consequentemente a Barbie Girl e os pais dela;
- Uma ítalo-colombiana e uma colombiana americanizada que nunca mais vão sair do meu coração;
- Três novas magníficas criaturinhas no mundo: Lara, Felipe e Sophia;
- Um Master sobre globalização enquanto o mundo agora parece estar se "desglobalizando";
- Avanços no inglês (nem tanto, mas pelo menos umas boas 100 novas palavras foram incorporadas solidamente no vocabulário);
- Liow or more specifically Nipon Terror;
- One lovely twaianese friend (Mei and the 'Susies');
- Um inglês casado com uma cubana;
- A primeira experiência de climbing indoor;
- My red bike and a new passion for cycling...;
- Some good books about Latin America and... DEMOCRACY...
- Alguma noção sobre o que é a América Latina;
- Novos vícios: honey roasted cashews and Carrs (agora na versão QUEIJO);
- O Morrinsons;
- Vontade de comer Fish and Tips (de verdade, e não só por curiosidade);
- Pouco álcool, quase nenhuma carne vermelha;
- Paixão incontrolável pelo sol;
- Atração por bibliotecas;
- Aquisição de um certo sarcasmo inglês ao meu sarcasmo natural;
- A descoberta de incríveis scholars, como Guillermo O'Donnell e Robert Dahl (tardio, mas sempre válido);
- Crescente admiração por Philip Roth;
- Um ano sem TV: e eu não morri;
- Vício completo, absoluto, integral e incurável em House MD, Brothers and Sisters, and Gray's Anatomy;
- Pouquíssimo dinheiro na conta corrente;
- A cura, segundo o Tea Tree;
- Visão altamente crítica sobre a mídia brasileira (já era, só fez piorar);
- Entendimento mais claro sobre a definição de "accountability";
- Crença na "Rule of Law";
- Entendimento profundo sobre a burocracia inglesa (a Era Victoriana precisa acabar, sério);
- Conteúdo e boa experiência para publicar o livro de auto-ajuda "Como ser paciente, engolir sapos e fingir que acredita nas boas intenções do Home Office"
- Ódio profundo da Virgin Broadband, Carphone Warehouse, Transport for London (or against London), and Thames Water;
- Ódio profundo da dissimulação do landlord;
- Ódio profundo do freezer que passou um ano sem funcionar;
- Guinness forever;
- Sentimento de humilhação em vários momentos;
- Sentimento de raiva em vários outros;
- Uma saudade indescritível;
- A ciência de quem são meus amigos de verdade e onde eles estão;
- A descoberta do que é o amor genuíno, e de como ele é paciente e pode esperar.

Acho que o saldo é positivo, afinal.

domingo, 28 de junho de 2009

Memories

Eis que eu estava sozinha aqui no silêncio do meu quarto, pensando na vida, nas pessoas, inclinada a assistir alguma coisa interessante. Mas a televisão foi abolida da minha vida em Londres (exceto as reportagens online, os filmes online, os seriados online, os documentários online... A vida online é mais que suficiente e estou certa de que a TV vai acabar rapidamente).
De repente, uma amiga do Brasil parece ler meu pensamento e me manda um link:
"Você TEM que ver isso".Obedeço. E vou.
Percebo pelo título do videoclip que se trata de algo sobre Guilherme Arantes. Vou animada. Fui fã do Guilherme Arantes na década de 80 (você também certamente foi fã de alguma coisa nos anos 80, então não me venha com essa. Estamos quites) e não resisti. Clico freneticamente.
Vejo o nome da música e não reconheço, o que me deixa perplexa. Que tipo de fã sou eu? O vídeo começa. Não é uma música do Gui. Alívio. Mas foi algo organizado pelo Gui, em 1987. Uma campanha de conscientização sobre a AIDS que envolveu vários artistas, patrocinada e veiculada pela Rede Globo.
O vídeo começa. E começa na verdade um requintado filme de horror. Quase cinco minutos de pura agonia.
A música é Viver outra vez, de Osmir Neto (não sei nada sobre ele, procurei algumas informações na internet e não achei nada confiável _ algumas falavam sobre a relevância do cantor no cenário brasileiro. Portanto, aceito informações relevantes sobre a figura).
Guilherme Arantes abre o vídeo com aquela vitalidade ímpar da década de 80. A música é incompreensível ("A minha mão nosso pai... Quero viver outra vez"), o ritmo é péssimo.
Na medida em que você vai assistindo ao clip, o pânico atinge graus elevados. A impressão imediata é que convidaram tudo e todos. Ou todos disponíveis. Ou o cachê era baixo. Ou era pura caridade.
Ou o que mais pode explicar o Emílio Santiago, o Neguinho da Beija-Flor, o Jerry Adriani e o Dr.Silvana, por exemplo, juntos? Heim? Qual é a conexão MUSICAL? Elza Soares combina com Rosana? A coisa vai se complicando ainda mais. Os fantasmagóricos dos anos 80 vão saltitando pela tela.
Jerry Adriani, como sempre, canta imponente, com o usual terno branco. Silvinho mexe a cabeleira, espreme os olhinhos. Eu me esforço e a internet me ajuda a lembrar que ele é o cara do Ursinho Blau Blau. Atualizando os internautas, lembro que ele virou evangélico (observação relevante: nem a Gretchen nem a Simoni estão no vídeo), fez um ensaio nu para uma revista feminina em 2000, é casado (tive sérias dúvidas sobre a heterossexualidade dele assistindo ao vídeo), tem filhos.
Vem em seguida o Marcelo. Me inquieto. Conheço o cara, sei que ele é famoso. Me parece ator de novela da década de 80, mas era cantor, óbvio. O que foi que ele fez???? Internet again: você se lembra da música "Ah, abre coração, vem me fazer feliz!". Pois é. Marcelo.
Neguinho da Beija Flor canta e eu, desatenta, o confundo com Emilio Santiago. Parecem gêmeos.
Quando você começa a se sentir mais confortável, reconhecendo os ídolos de 80, surge Renato Terra. Você se esforça, se esforça, e nada. Quem era o cara? Resposta: autor de "Bem-te-vi, oh, meu bem, te vi... Voa livre por entre os jardins e pousa no meu coração..." Linda canção. Me emociono ao lembrar.
Depois do Erasmos, claro, eu imagino ver a Wanderléia, mas convidaram a Adriana (isso reforça a tese do cachê baixo), que na verdade é irmã gêmea da Wanderléia. Unha e carne. Tudo parece uma mutação genética neste clip.
O momento que esfria a espinha é quando o Tim Maia grita "quero viver outra vez". Nada mais assustador.
Rosana está magnífica, façamos justiça à moça. Canta inspirada, faz seus gestos de deusa com a convicção de sempre. Muito justo a presença dela no videoclip. Tudo a ver.
Quando a galera resolve bater palma e simular que está cantando rock a coisa se complica seriamente. Você acha que não aguenta até o final. Persistente, eu sigo. Mas a sensação é de paúra.
Agora, a vez é do Dalto. Muito estranho (sem trocadilho). Não sei porque razão, mas esperava, logo em seguida ver quem, quem? Vinícius Cantuária. Mas não.
Finalmente colocam o tal do Osmir Neto no clip. Muito prazer, Osmir.
Jane Duboc mostra a que veio, mas decepciona. A única com algum currículo mais consistente, que poderia dar um certo ar musical mais elitista à coisa, só grita, não canta.
Ninguém consegue entender a razão da imagem do Dr. Silvana (do "Amor sem preconceito sigilo total, sexo total, amante profissional"). Acho que nem ele entendeu porque o convidaram, então só dá uma risadinha, para constar.
Peraí, peraí: o que a Monique Evans está fazendo no recinto??? Pois é. Nem eu, nem o Guilherme Arantes, nem o Osmir Neto e nem a Rede Globo sabem explicar, mas o fato é que a Monique Evans aparece no clip. Ouvi dizer que ela namorava o Marcelo na época. Achava que ele estava junto com o Silvinho. Tudo bem. A vida íntima deles não interessa.
O Tim Maia era amigo da Adriana? Porque se abraçam tão calorosamente?
O Silvinho era gay?
E para confundir tudo, tudo mesmo, aparece o Fábio. Descubro na internet que ele cantava Estela, mas ainda assim a coisa não fica muito clara para mim.
As surpresas não param, e Marcio Greyc dá o ar da graça. Eu não me lembro dele, mas o importante é que ainda continua na ativa, pessoal. Confiram neste link!
É chocante ver a imagem de 1987 e o atual Greyc. O tempo não pára (Cazuza não faz parte do vídeo. Exatamente em 1987 foi diagnosticado ser portador do HIV).
É impressionante como os anos 80 estão pregados na nossa alma para sempre. Você pede para viver outra vez, mas não adianta. O passado te ronda, te aprisiona, te consome. O melhor é se entregar. Ao contrário do lema da música, nem para tudo existe um fim. E continuo, alucinadamente, tentando achar o clip do Fábio cantando Estela...

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Me, Charles Darwin and London

Em Londres, há sempre um elemento surpresa - para o bem ou para o mal.
Quando eu receio cair na melancolia, algo novo acontece.
Nesta sexta-feira - dia dos namorados, diga-se de passagem - o inusitado foi um convite de Anna Barros, amiga, cientista, housemate, para visitar uma sala inusitada (fechada ao público e apenas acessível a cientistas/pesquisadores) no Museu de História Natural de Londres.

Fui, óbvio. Inicialmente meu espírito era observar uma sala - cheia de fósseis, claro - usada na Segunda Guerra como bunker. Todo o museu foi um bunker na Segunda Guerra. Ou seja, meu genuíno interesse era político. Como sempre.
However, houve uma reviravolta após minha chegada ao local.
Primeiro, uma simpática professora inglesa, coordenadora do setor de Mamíferos - sem nenhum trocadilho -, nos recebe na porta do museu.

Descemos para um porão meio assustador, repleto de labirintos. O cheiro me lembrou o do laboratório de Anatomia da Faculdade de Fonoaudiologia (1996 depois de Cristo), cuja breve experiência com formol, órgãos e corpos humanos foi suficiente para me mostrar que aquele não era um caminho profissional que eu devesse seguir.
A simpática inglesa, rápidíssima nas palavras, cheia de ironias e trocadilhos científicos na fala, pergunta se alguém na sala não tem nenhuma familiaridade com os termos biológicos, com Arqueologia, Paleontologia. Inibida, sou a única a levantar a mão. Explico que sou jornalista, amiga da Anna, e estou ali movida apenas pela curiosidade. Todos parecem me perdoar, mesmo sendo uma completa estranha no ninho.

Começa o tour científico.
O porão é cheio de armários fechados, que parecem de alguma forma uma biblioteca de ossos. "Já leu esse?" É exatamente com a naturalidade de quem busca clássicas preciosidades literárias numa biblioteca qualquer que ela fala sobre fósseis encontrados há 200 milhões de anos, como se isso fosse logo ali. Começo a tentar fazer as contas e me perco. Pego um exemplar minúsculo (minúsculo mesmo) de um dente de um mamífero que foi o ancestral das baleias. Data de nascimento: 150 milhões de anos antes de 2009.

Entusiasmada, a cientista do Museu de História Natural vai abrindo armários, explicando milhões de coisas sobre a Era X, Y, Z(Mezozóica? Paleozóico?). Os estudantes (de Masters e PhD) parecem perplexos, o que me leva a acreditar que aquilo tudo deve ser MUITO importante. Digamos que o equivalente, para quem gosta de literatura, seria como receber um convite de um "ancestral" de Dostoevsky para entrar na casa dele e ver as "penas" que ele usava para escrever, a biblioteca particular dele, os manuscritos que nunca publicou. Emoção impossível de descrever.

Prosseguimos entre centenas de armários cheios de gavetas - e ossos - preciosas. Eis que em um armário está guardado o crânio de um provável ancestral dos rinocerontes (a professora explica que ainda não há indícios suficientes para comprovar quem foi o animalzinho em questão, mas os cientistas estão produzindo um "paper" a respeito). Idade provável do bichinho: 35 milhões de anos. E eu achava que minha vozinha, que partiu desta para a melhor com 96, era uma heroína.

Passamos por um setor meio estranho, em que ela mostra "vestígios de gramas" encontradas no intestino de alguns mamíferos - claro que há milhões de anos. Eu penso que aquilo deve ser uma maconha poderosa, mas evito fazer qualquer comentário. Ela explica sobre a evolução do esôfago, porque precisamos ter algo "comprido" entre o estômago e a boca e, em seguida, abre uma coleção pré-histórica de coco. Isso é novo pra mim. Os cientistas estudam coco antigo para ter algum indício sobre a evolução das espécies. Ok, tem gosto para tudo, inclusive na Ciência. Os estudantes pegam o coco. Eu me recuso. Não sou cientista, sou a única jornalista do grupo. Não preciso pegar coco.

Quando eu começo a me entusiasmar com o tesouro científico - tirando a parte do coco -, o inesperado acontece. Ela abre o armário "Charles Darwin Collection - Beagle Voyage". Os estudantes tremem. Eu sinto que agora é o apogeu da nossa visita. Ela abre algumas caixas e nos deixa tocar alguns fósseis, depois que uma bióloga britânica, quase chorando, pergunta se pode passar o dedinho naqueles ossinhos. O fóssil em questão é de uma espécie gigantesca do bicho-preguiça (Malloton) que Darwin coletou na viagem feita a bordo do navio Beagle (1831-1836) para os Galápagos e América do Sul. Começo a entender a razão da falta de fôlego dos estudantes. A tal coleção é parte da inspiradora obra "A origem das espécies", talvez mais importante que a Bíblia. Me emociono. E passo a mão no avô do bicho-preguiça gigante. Estou ali em frente ao armário do Darwin. Sacou? Deu pra entender?

Depois ela mostra uma coleção de cérebros de baleias - divertido, mas tudo fica pequeno depois da coleção do Darwin - e o tour termina com a exposição de uma coletânea de fósseis de cetáceos (golfinhos, baleias, etc). Incrível. Ela mostra como foi a "evolução" ou "adaptação" dos dentes dos cetáceos - até eles virarem de fato baleias e golfinhos. Realmente incrível. Primeiro comiam plantas aquáticas (dentinhos mais suaves, arredondados). Depois, começaram a comer peixinhos (dentes mais afiados). Enfim, a natureza é mesmo perfeita. E não há como duvidar da teoria da evolução das espécies. Ela está ali, catalogada. Na sua cara. Evidente.

Fico pensando nas coisas que o ser humano devia mudar no próprio corpo para "aperfeiçoar" a vida no futuro. Imagino o dia em que os meus herdeiros genéticos vão olhar o fóssil do meu dedão do pé e pensar como era atrasada essa coisa de ter unha encravada. Um dia isso vai mudar. O corpo, aos poucos, vai provar para a unha do meu dedão que não existe espaço suficiente para ela crescer como bem entende - assim como o estômago provou para o corpo que ele precisava de algo intermediário entre a boca e surgiu, então, o esôfago. E eles (a unha e o dedão do pé) vão se entender, harmonicamente, no futuro. Talvez isso demore 30 milhões de anos. Não tem problema. A espécie vai ser melhor. Uma espécie sem unha encravada.

O mundo é mesmo incrível. A natureza é incrível.
E eu, incrivelmente, passei a mão nos ossinhos do tataravô do bicho-preguiça gigante descoberto pelo Darwin. Pode ser mesmo supreendente a vida em Londres.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Barbie Girl

Meu objetivo com este post não é hipnotizar você e nem adianta tentar me processar só porque ao final deste texto você não vai se lembrar de outra música a não ser a Barbie Girl, do Aqua (eu tive que pesquisar algumas coisas sobre o Aqua, porque realmente é incrível que alguém tenha tido tempo para escrever uma idiotice como essa e mais assustador ainda que a música tenha virado um sucesso...) Portanto, se quiserem levar alguém à Corte Suprema, levem o Aqua.


Bem, vamos aos fatos.

Domigo de sol, e eu sou convidada por amigos para me divertir durante um picnic no parque. Sol, Londres, parque e picnic são combinações extremamente inspiradoras e reconfortantes. Aceitei o convite sem pestanejar, ainda que tivesse acordado com uma ressaca sem proporções.
Dia lindo, gramado lindo, gente alegre. Estou mesmo em Londres? Inacreditável. Os amigos felizes, muita comida. A toalha é uma canga com a bandeira do Brasil e, coincidentemente, eu percebo que todos os brasileiros ao redor usam a mesma canga, com a bandeira do Brasil, para celebrar o domingo ensolarado. Estabelecemos de imediato uma conexão cosmológica em torno da canga. Brasileiros são mesmo incríveis.
Entre os amigos está um casal cuja filhinha, maravilhosa e esplêndida, é bilíngue. Ela mistura com uma naturalidade invejável o português e o inglês e assim vamos nos comunicando, ora com um idioma, ora com outro.
Encantada pela graça da garota, tento me aproximar. A fórmula da sedução é perguntar onde fica o castelo dela (já que algumas horas antes ela tinha nos avisado que era uma Princess). Animada, ela me dá a mão e vamos procurar o "castle" no parque. O "castle" é uma árvore enorme, e ficamos lá debaixo, imaginando as janelas, as portas, os cômodos. Quando eu me canso de tanta imaginação ela me manda sentar na grama e ficar lá quieta. E eu pergunto: por que? Ela: "Porque aqui é o nosso castelo, e você mora aqui comigo". Ah, tá.
Conversa vai, conversa vem, e de repente eu também sou princesa.
Para aumentar o nosso grau de cumplicidade, afinal princesas precisam trocar idéias sobre o mundo, eu pergunto quem é a princesa favorita dela.
- Barbie Girl.
- Barbie Girl? Mas não tem conto de fadas sobre Barbie Girl.
- Yes, but there is the song, and the song is the story.
E ela começa a cantar.

I'm a Barbie girl in the Barbie world
Life in plastic, it's fantastic
You can brush my hair, undress me everywhere
Imagination, life is your creation


TODOS ao redor me olham. Talvez me culpem por ter estimulado a criança a cantar Barbie Girl. Eu digo, constrangida, que gosto da Barbie Girl. O que eu ia dizer? É a pricesa favorita dela, come on...

- Meu pai não gosta da Barbie Girl.

Ups. Já começo a entender que tenho um problema sério à vista. Deixamos o nosso castelo, e ela ainda cantando a Barbie Girl' song.

- Papai, minha amiga gosta da Barbie Girl.

Nem preciso descrever a cara e o olhar do pai. Percebo de imediato a minha mancada. Claro que eu deveria ter dito a ela que a Barbie Girl não é tão legal assim. Dá pra imaginar aquele pobre cristão, o pai, escutando Barbie Girl todo santo dia? Eu olho para ele com uma cara de arrependimento enorme, e imploro por perdão.

- Eh, mas o papai não acha ela muito legal.

Eu tento mudar de assunto, mas ela está obcecada por princesas, castelos, canções. Voltamos ao nosso castelo. E a Barbie Girl ainda está nas paradas de sucesso. Começo a refletir sobre a música.
Como alguém pode achar que "Life in Plastic is Fantastic"?
Sério. Como eu pude dizer a ela que eu gosto de Barbie Girl? Onde eu estava com a cabeça?
E por que, meu deus, essa música não sai da minha mente?

Depois de algum tempo pegamos algumas "flowers", tento mudar de assunto para que os pais dela possam me perdoar pelo fato de eu ter feito uma apologia irresponsável à Barbie Girl. Acho que a coisa fica bem, ao final. Preciso ir embora. Me despeço, ela diz que vai me chamar para a gente ir ao cinema. Começo a tremer: será que ela vai me chamar para ver Barbie Girl? Enfim...

Vou caminhando, e, de repente, vejo que estou cantarolando o que? Barbie Girl.
Chego em casa e vou checar a letra. Não pode ser tão ruim assim.
Mas é. É bem pior que eu imaginava.
A voz do Ken é algo inexplicável.
E como o Ken pode, numa música assim, tirar e colocar a roupa da Barbie como ele bem entende? "Kiss me here, touch me there, hanky-panky"... Ah, tá de brincadeira...

Penso em telefonar para os amigos e pedir desculpas de novo. Na verdade, planejo um abaixo-assinado de pais revoltados contra o Aqua. Já imagino uma grande mobilização de pais no parque contra a Barbie Girl. Uma ONG. Gente, como isso tocou nas rádios? Sério, isso é uma agressão ao menor. E ao maior. E à terceira idade.
Bem, como o Aqua gravou isso em 1997 acho que em breve ninguém vai se lembrar da Barbie Girl em 2010 (mas é arriscado, porque estamos em 2009 e uma criança elegeu a Barbie Girl como princesa favorita).
Deixo a indignação de lado, preparo meu chá e me organizo para dormir. Enquanto estou na cozinha conto a história (triste) para as minhas flatmates. Vou dormir.
Da cama, escuto alguém cantarolando:

Come on, Barbie, let's go party, ha ha ha, yeah
Come on, Barbie, let's go party, oooh, oooh
Come on, Barbie, let's go party, ha ha ha, yeah
Come on, Barbie, let's go party, oooh, oooh


Só posso estar tendo um pesadelo.
Melhor procurar meu "castle" e me esconder no parque.

p.s - Eu avisei. Processem o Aqua. Ou o Ken, esse tarado.