terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Sóbria numa noite suja

Café não podia. Chocolate nem pensar. Nem chá, nem álcool, nem fumo, nem lipídios.
Achei que talvez sexo estivesse proibido, já que só pode se tratar de uma brincadeira de mau gosto privar o ser humano de todos os prazeres básicos e primitivos, provocando no cérebro um estado de loucura também rudimentar ao exigir dele duas semanas de completa abstinência e algumas horas de jejum.
Ainda assim me aventuro a encarar a noite.
Perdida, sóbria num lugar escuro, encontro as amigas.
Todas acompanhadas, claro. Isso é ponto pacífico na minha vida.
Beber é hábito contumaz. Não importa o gosto.
Misturas de vodka com água tônica são celebradas. Mas é Absolut!, me explicam.
Capi de melancia (vejam bem, melancia) é saboreada em goles pequenos. Mais de uma vez.
Empolgada, resolvo tomar suco de melancia. E fico pensando no gosto da Capi Kiwi...
Dançamos. Todos. Eu mais que todos, imersa na minha caretice compulsória por conta de um exame para testar a labirintite.
Descubro que a sobriedade é alucinógena.
Fico amiga do barman, um gordão de 200 quilos. Talvez porque fosse a única da pista capaz de trocar algumas palavras com nexo com ele.
“Mais uma, Malu?”, antecipava ele, já pegando o suquinho de limão espremido para misturar na minha límpida água com gás.
As amigas resolvem que eu preciso conhecer os amigos dos namorados delas. Essa história nunca deu certo nem nas cavernas, mas o ser humano segue insistindo.
Os amigos são lindos, claro. Gente boa.
Mas bêbados e, óbvio, muito mais interessados nas gostosinhas da pista de dança que numa mulher não bêbada e vítima dos efeitos colaterais provocados pelo excesso de movimentação e calor na pista. E olha que eu estava com a minha linda blusa frufru-bufante, um escândalo da moda, última geração.
Nem assim.
Mas o bom do álcool é a perda gradual e progressiva do senso do ridículo e a completa ausência de bom senso.
Os amigos bonitinhos do namorado da minha amiga até resolvem me paquerar de vez em quando, ao mesmo tempo em que paqueram umas trezentos e quarenta e cinco meninas de mais ou menos 17 anos. Eles certamente já devem ter passado dos 35.
O gordão passa na pista. Acho que os caras o paqueram também.
Minha amiga insinua que eles gostaram de mim. Penso que eles gostam até de anão de jardim, naquela situação.
Mas sigo dançando, nessa paquera às avessas.
As pessoas perdem bolsas. Pagam bebidas que não beberam.
Desequilibram na pista. Brigam por nada com os namorados.
Copos circulam com líquidos indecifráveis. Mas é Absolut.
Inventam danças estilo João-bobo (cai, não cai).
As conversas são construtivas. Emboladas, mas construtivas.
Quase cinco horas da manhã e um dos bêbados bonitinhos me pergunta: já vai, tá cedo.
Opa, não tenho a menor dúvida, respondo. Ele não entende. É estranho sóbrios explicarem coisas a bêbados. Melhor evitar.
Chego em casa exausta, com ressaca de tanto dançar.
Tomo banho sem desequilibrar. Acho o edredon. Durmo de pijama.
Aquecida, sem lápis no olho e de dentes escovados. Não sinto fome.
Quando me olho no espelho, no dia seguinte, descubro, então, os benefícios de tão sofrida abstinência.

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