domingo, 27 de janeiro de 2008

Yakult da metrópole

É incrível a capacidade que um carrinho de Yakult tem de me emocionar.
Todas as vezes em que passo ao lado de um deles (e, para minha surpresa, sim, eles existem em São Paulo) é imediata a associação com a cara apreensiva da minha mãe comprando estojinhos do iogurte miraculoso para uma família gigante de seis filhos.
O ritual da compra era coisa séria, tipo maçonaria, máfia siciliana. Era preciso agendar a ida de um vendedor do Yakult na sua casa. Havia uma cadernetinha para escrever quantos copinhos do líqüido você iria adquirir. O pagamento era só ao final do mês.
Tudo muito controlado, uma espécie de comitê socialista do Yakult. Hoje chego até a pensar que havia células da Yacusa no Brasil controlando tal abastecimento interno.
“Mãe, posso tomar um?”, eu começava logo depois que a preciosidade entrava na geladeira.
“Já expliquei que é só um por dia, porque tem lactobacilos”, ela repetia.
Não havia a menor possibilidade de tomarmos mais de um por dia. E nem mesmo um a cada dia por dias seguidos. Era coisa controlada ao longo da semana, com isonomia fraternal.
E claro que o pavor dos lactobacilos nunca me deixava corromper essa regra.
Uma vez minha mãe explicou que os tais lactobacilos eram uns bichinhos que faziam bem pra nossa barriga. E não se fala mais nisso. Pronto.
A evolução dos lactobacilos levou à desenfreada produção atual de Activias, Nesfit/fibras, etc. Mas nada se compara ao gostinho doce/azedo dos lactobacilos vivos. Um prazer curto, objetivo, com gosto de eterno.
Até hoje eu acredito que minha mãe falava a verdade. Que não pode haver sobrecarga de lactobacilos no corpo. Recuso-me a cogitar que se tratava de um estratagema dela para o estojinho durar mais tempo e os seis filhos não se matarem, vivos, pelos lactobacilos.
O poder do carrinho de Yakult transcende o passado e chega até a consciência do presente.
Porque a metrópole, além do iogurte com bactérias em pura atividade, oferece doces possibilidades em meio ao amargo da modernidade.
O senhor que vende sorvete de Americana na rua pede para que as pessoas saiam de suas casas e levem seus potes. Há feirinhas com pastéis diversos, espalhadas em cantos que abrigam 11 milhões de pessoas. De segunda, de terça, de quarta, de quinta...
Acordo aos domingos com os berros do sujeito que vende empadinha. Consigo escutar som de passarinho de manhã, intercalado pela passagem dos ônibus. Minha garagem é um pé de maracujá.
Tem um pouco de Minas em São Paulo.
Uma metrópole em estágio avançado de fermentação.

2 comentários:

Anônimo disse...

Nem me fale...Eu furava meu Yakult com palitinho...Um buraquinho minusculo pra durar ateeeeeeeeeee o dia seguinte...e isso dava muito mais que 24 horas.

Anônimo disse...

Malu, qualquer elogio aqui me parece pequeno pra te dizer o quanto teus textos me alegraram nesse domingo chuvoso. Li tudo, adorei tudo e já fiz minha carteirinha de leitor assíduo. Já tô esperando o próximo, vou ler tomando yakult!
Bj grande.
stefan