Segunda-feira, meio do feriado.
Provavelmente a ex-mulher viajou por aí com um namorado lindo.
Ele ficou com as duas meninas: 4, 6.
Sem criatividade (deve ter perdido esse traço da paternidade há alguns anos) e sem fantasia, leva as garotas ao shopping.
Compra McDonald´s. Afinal, é carnaval.
Enquanto a mais nova devora a batata frita, a mais velha se levanta e solta a frase temida por qualquer adulto: ´Quero ir ao banheiro`.
Tinha que ser agora, ele revida nervoso.
Justo agora, que a comida vai sair (a dele, claro; um prato de comida de verdade).
Ela faz cara de choro. Tô apertada, explica.
Ele se levanta. Olha para mesa, olha para o banheiro. Calcula as distâncias.
Pega o prato lindo. Coloca sobre a mesa.
Júlia, vou levar sua irmã ao banheiro. Você não saia da mesa.
Detalhe: é um shopping. Júlia tem 4 anos.
Ela chora. ´E eu vou ficar aqui sozinha?`
Chora de novo.
Ele focaliza mais uma vez a placa do banheiro, mira a mesa.
´Vai comendo a batatinha`, tenta despistar.
Nada. Júlia continua chorando.
A outra segura a barriga, vira o olho.
Ele olha o prato. Júlia chora.
Como eu vou fazer?, fica nervoso.
Manda a mais velha ir ao banheiro. Sozinha.
Ela chora.
A moça da mesa ao lado se oferece para tomar conta da Júlia.
Ele agradece, mas vai deixar a mais velha se virar (se sujar) no banheiro sozinha.
Ele se senta à frente de Júlia. Começa a comer.
Ela chora. Uma vez começado o pranto, difícil parar nessas ocasiões.
Ele come. Vorazmente.
O celular toca. Ele conversa em inglês sobre algum assunto de trabalho.
Júlia pára de chorar. Engole a batatinha com dificuldade.
A outra volta do banheiro. Calça meio torta. Aparentemente limpa. Todas as mulheres ao lado comemoram o retorno da pequena, ilesa. Enfim, comemoram que ela simplesmente tenha voltado.
As duas irmãs se olham. Olham para ele.
Ele continua a conversar. Elas param de comer.
Ficou fria a batatinha. Não dá mais para engolir.
Mas é carnaval.
E elas estão ali, no shopping, desfrutando uma infância sem nenhuma fantasia.