É incrível a capacidade que um carrinho de Yakult tem de me emocionar.
Todas as vezes em que passo ao lado de um deles (e, para minha surpresa, sim, eles existem em São Paulo) é imediata a associação com a cara apreensiva da minha mãe comprando estojinhos do iogurte miraculoso para uma família gigante de seis filhos.
O ritual da compra era coisa séria, tipo maçonaria, máfia siciliana. Era preciso agendar a ida de um vendedor do Yakult na sua casa. Havia uma cadernetinha para escrever quantos copinhos do líqüido você iria adquirir. O pagamento era só ao final do mês.
Tudo muito controlado, uma espécie de comitê socialista do Yakult. Hoje chego até a pensar que havia células da Yacusa no Brasil controlando tal abastecimento interno.
“Mãe, posso tomar um?”, eu começava logo depois que a preciosidade entrava na geladeira.
“Já expliquei que é só um por dia, porque tem lactobacilos”, ela repetia.
Não havia a menor possibilidade de tomarmos mais de um por dia. E nem mesmo um a cada dia por dias seguidos. Era coisa controlada ao longo da semana, com isonomia fraternal.
E claro que o pavor dos lactobacilos nunca me deixava corromper essa regra.
Uma vez minha mãe explicou que os tais lactobacilos eram uns bichinhos que faziam bem pra nossa barriga. E não se fala mais nisso. Pronto.
A evolução dos lactobacilos levou à desenfreada produção atual de Activias, Nesfit/fibras, etc. Mas nada se compara ao gostinho doce/azedo dos lactobacilos vivos. Um prazer curto, objetivo, com gosto de eterno.
Até hoje eu acredito que minha mãe falava a verdade. Que não pode haver sobrecarga de lactobacilos no corpo. Recuso-me a cogitar que se tratava de um estratagema dela para o estojinho durar mais tempo e os seis filhos não se matarem, vivos, pelos lactobacilos.
O poder do carrinho de Yakult transcende o passado e chega até a consciência do presente.
Porque a metrópole, além do iogurte com bactérias em pura atividade, oferece doces possibilidades em meio ao amargo da modernidade.
O senhor que vende sorvete de Americana na rua pede para que as pessoas saiam de suas casas e levem seus potes. Há feirinhas com pastéis diversos, espalhadas em cantos que abrigam 11 milhões de pessoas. De segunda, de terça, de quarta, de quinta...
Acordo aos domingos com os berros do sujeito que vende empadinha. Consigo escutar som de passarinho de manhã, intercalado pela passagem dos ônibus. Minha garagem é um pé de maracujá.
Tem um pouco de Minas em São Paulo.
Uma metrópole em estágio avançado de fermentação.
domingo, 27 de janeiro de 2008
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
´Disco de mim`
Por mais de uma vez pensei em rivalizar com o tempo.
Idéia recente foi discutida e aprovada entre o público feminino.
“Olha, gostei de você. Leve o CD, coloque no DVD, dê uma olhada, selecione as cenas. Se interessar, vá no ícone contatos, pegue meu e-mail e telefone, e me procure.”
Ou assim: “Você tem seu CD aí?”
O ´seu CD` economizaria muito tempo. E faria quase que uma seleção natural das espécies.
Você se apresenta, seleciona os aniversários mais importantes, faz um resumão do período da faculdade, opta por mencionar ou não os ex-relacionamentos mais relevantes, explica se toma ou não tarja preta, admite limitações básicas, mostra cômodos da casa, fotos da família, algum texto que já fez e gostou, filma rapidamente a estante de livros, lista hábitos, conta alguma coisa do trabalho (a longa parte que te frustra e a pequena parte que te faz feliz), relaciona interesses intelectuais atuais. Diz se é mais carnaval ou semana santa, se é cerveja ou destilado, se é Beatles ou Rolling Stones. Ou os dois juntos. Pronto. Simples assim.
Vocês trocam os ´seus CDs`. Cada um analisa. Pensa com carinho. Vê se o jeito da pessoa te agrada. Imagina perguntas interessantes sobre algo que ela já tenha mencionado no CD. Em menos de trinta minutos você já conhece a família do outro, os ex, sabe onde está pisando e não vai precisar passar por aquele momento ridículo de ter que perguntar “e aí, o que você faz?” só para puxar assunto.
Porque a preguiça está basicamente no início (também no meio, também no fim).
Mas há uma preguiça incalculável nos inícios. Já imaginou ter que ficar falando sobre os últimos 30 e tantos anos para alguém que você nunca viu na vida? Ou seja, a probabilidade de isso dar errado é altíssima.
Com o CD não. Tá lá. Você decide. Assiste, não assiste. Gostou, não gostou. Ninguém entra em bola dividida. Ninguém insiste em vão.
Você economizaria mais ou menos uns três anos com o CD.
Porque, sem o CD, no primeiro ano vai insistir em contar pílulas sobre os ex-relacionamentos sob o argumento de que não quer repetir os mesmos erros.
No segundo ano vai tentar algum tipo de aproximação real entre ele e sua família.
No terceiro ano vai começar a revelar o que realmente importa, o que realmente gosta, o que realmente te interessa, e quais realmente são suas aspirações profissionais e intelectuais para o futuro.
Tá, admito que esse cronograma está longo demais e que podemos substituir os três anos por três meses. Ainda assim você ganha um baita tempo se tiver o CD.
E tem que pensar que o CD é um título rolado a longo prazo no mercado.
É a partir do CD que você decide ou não comprar as ações.
Agora, o investimento não é seguro.
Aplicações em bolsa não são.
Porém, o CD é o seu corretor de bolsa avisando de antemão que não adianta ter pânico na baixa nem entusiasmo exacerbado na alta. E que há recessões norte-americanas pelo caminho. Mas você bem que avisou.
Pense nisso. Faça o seu CD.
E, se quiser, leve o meu pra casa.
Idéia recente foi discutida e aprovada entre o público feminino.
“Olha, gostei de você. Leve o CD, coloque no DVD, dê uma olhada, selecione as cenas. Se interessar, vá no ícone contatos, pegue meu e-mail e telefone, e me procure.”
Ou assim: “Você tem seu CD aí?”
O ´seu CD` economizaria muito tempo. E faria quase que uma seleção natural das espécies.
Você se apresenta, seleciona os aniversários mais importantes, faz um resumão do período da faculdade, opta por mencionar ou não os ex-relacionamentos mais relevantes, explica se toma ou não tarja preta, admite limitações básicas, mostra cômodos da casa, fotos da família, algum texto que já fez e gostou, filma rapidamente a estante de livros, lista hábitos, conta alguma coisa do trabalho (a longa parte que te frustra e a pequena parte que te faz feliz), relaciona interesses intelectuais atuais. Diz se é mais carnaval ou semana santa, se é cerveja ou destilado, se é Beatles ou Rolling Stones. Ou os dois juntos. Pronto. Simples assim.
Vocês trocam os ´seus CDs`. Cada um analisa. Pensa com carinho. Vê se o jeito da pessoa te agrada. Imagina perguntas interessantes sobre algo que ela já tenha mencionado no CD. Em menos de trinta minutos você já conhece a família do outro, os ex, sabe onde está pisando e não vai precisar passar por aquele momento ridículo de ter que perguntar “e aí, o que você faz?” só para puxar assunto.
Porque a preguiça está basicamente no início (também no meio, também no fim).
Mas há uma preguiça incalculável nos inícios. Já imaginou ter que ficar falando sobre os últimos 30 e tantos anos para alguém que você nunca viu na vida? Ou seja, a probabilidade de isso dar errado é altíssima.
Com o CD não. Tá lá. Você decide. Assiste, não assiste. Gostou, não gostou. Ninguém entra em bola dividida. Ninguém insiste em vão.
Você economizaria mais ou menos uns três anos com o CD.
Porque, sem o CD, no primeiro ano vai insistir em contar pílulas sobre os ex-relacionamentos sob o argumento de que não quer repetir os mesmos erros.
No segundo ano vai tentar algum tipo de aproximação real entre ele e sua família.
No terceiro ano vai começar a revelar o que realmente importa, o que realmente gosta, o que realmente te interessa, e quais realmente são suas aspirações profissionais e intelectuais para o futuro.
Tá, admito que esse cronograma está longo demais e que podemos substituir os três anos por três meses. Ainda assim você ganha um baita tempo se tiver o CD.
E tem que pensar que o CD é um título rolado a longo prazo no mercado.
É a partir do CD que você decide ou não comprar as ações.
Agora, o investimento não é seguro.
Aplicações em bolsa não são.
Porém, o CD é o seu corretor de bolsa avisando de antemão que não adianta ter pânico na baixa nem entusiasmo exacerbado na alta. E que há recessões norte-americanas pelo caminho. Mas você bem que avisou.
Pense nisso. Faça o seu CD.
E, se quiser, leve o meu pra casa.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Sóbria numa noite suja
Café não podia. Chocolate nem pensar. Nem chá, nem álcool, nem fumo, nem lipídios.
Achei que talvez sexo estivesse proibido, já que só pode se tratar de uma brincadeira de mau gosto privar o ser humano de todos os prazeres básicos e primitivos, provocando no cérebro um estado de loucura também rudimentar ao exigir dele duas semanas de completa abstinência e algumas horas de jejum.
Ainda assim me aventuro a encarar a noite.
Perdida, sóbria num lugar escuro, encontro as amigas.
Todas acompanhadas, claro. Isso é ponto pacífico na minha vida.
Beber é hábito contumaz. Não importa o gosto.
Misturas de vodka com água tônica são celebradas. Mas é Absolut!, me explicam.
Capi de melancia (vejam bem, melancia) é saboreada em goles pequenos. Mais de uma vez.
Empolgada, resolvo tomar suco de melancia. E fico pensando no gosto da Capi Kiwi...
Dançamos. Todos. Eu mais que todos, imersa na minha caretice compulsória por conta de um exame para testar a labirintite.
Descubro que a sobriedade é alucinógena.
Fico amiga do barman, um gordão de 200 quilos. Talvez porque fosse a única da pista capaz de trocar algumas palavras com nexo com ele.
“Mais uma, Malu?”, antecipava ele, já pegando o suquinho de limão espremido para misturar na minha límpida água com gás.
As amigas resolvem que eu preciso conhecer os amigos dos namorados delas. Essa história nunca deu certo nem nas cavernas, mas o ser humano segue insistindo.
Os amigos são lindos, claro. Gente boa.
Mas bêbados e, óbvio, muito mais interessados nas gostosinhas da pista de dança que numa mulher não bêbada e vítima dos efeitos colaterais provocados pelo excesso de movimentação e calor na pista. E olha que eu estava com a minha linda blusa frufru-bufante, um escândalo da moda, última geração.
Nem assim.
Mas o bom do álcool é a perda gradual e progressiva do senso do ridículo e a completa ausência de bom senso.
Os amigos bonitinhos do namorado da minha amiga até resolvem me paquerar de vez em quando, ao mesmo tempo em que paqueram umas trezentos e quarenta e cinco meninas de mais ou menos 17 anos. Eles certamente já devem ter passado dos 35.
O gordão passa na pista. Acho que os caras o paqueram também.
Minha amiga insinua que eles gostaram de mim. Penso que eles gostam até de anão de jardim, naquela situação.
Mas sigo dançando, nessa paquera às avessas.
As pessoas perdem bolsas. Pagam bebidas que não beberam.
Desequilibram na pista. Brigam por nada com os namorados.
Copos circulam com líquidos indecifráveis. Mas é Absolut.
Inventam danças estilo João-bobo (cai, não cai).
As conversas são construtivas. Emboladas, mas construtivas.
Quase cinco horas da manhã e um dos bêbados bonitinhos me pergunta: já vai, tá cedo.
Opa, não tenho a menor dúvida, respondo. Ele não entende. É estranho sóbrios explicarem coisas a bêbados. Melhor evitar.
Chego em casa exausta, com ressaca de tanto dançar.
Tomo banho sem desequilibrar. Acho o edredon. Durmo de pijama.
Aquecida, sem lápis no olho e de dentes escovados. Não sinto fome.
Quando me olho no espelho, no dia seguinte, descubro, então, os benefícios de tão sofrida abstinência.
Achei que talvez sexo estivesse proibido, já que só pode se tratar de uma brincadeira de mau gosto privar o ser humano de todos os prazeres básicos e primitivos, provocando no cérebro um estado de loucura também rudimentar ao exigir dele duas semanas de completa abstinência e algumas horas de jejum.
Ainda assim me aventuro a encarar a noite.
Perdida, sóbria num lugar escuro, encontro as amigas.
Todas acompanhadas, claro. Isso é ponto pacífico na minha vida.
Beber é hábito contumaz. Não importa o gosto.
Misturas de vodka com água tônica são celebradas. Mas é Absolut!, me explicam.
Capi de melancia (vejam bem, melancia) é saboreada em goles pequenos. Mais de uma vez.
Empolgada, resolvo tomar suco de melancia. E fico pensando no gosto da Capi Kiwi...
Dançamos. Todos. Eu mais que todos, imersa na minha caretice compulsória por conta de um exame para testar a labirintite.
Descubro que a sobriedade é alucinógena.
Fico amiga do barman, um gordão de 200 quilos. Talvez porque fosse a única da pista capaz de trocar algumas palavras com nexo com ele.
“Mais uma, Malu?”, antecipava ele, já pegando o suquinho de limão espremido para misturar na minha límpida água com gás.
As amigas resolvem que eu preciso conhecer os amigos dos namorados delas. Essa história nunca deu certo nem nas cavernas, mas o ser humano segue insistindo.
Os amigos são lindos, claro. Gente boa.
Mas bêbados e, óbvio, muito mais interessados nas gostosinhas da pista de dança que numa mulher não bêbada e vítima dos efeitos colaterais provocados pelo excesso de movimentação e calor na pista. E olha que eu estava com a minha linda blusa frufru-bufante, um escândalo da moda, última geração.
Nem assim.
Mas o bom do álcool é a perda gradual e progressiva do senso do ridículo e a completa ausência de bom senso.
Os amigos bonitinhos do namorado da minha amiga até resolvem me paquerar de vez em quando, ao mesmo tempo em que paqueram umas trezentos e quarenta e cinco meninas de mais ou menos 17 anos. Eles certamente já devem ter passado dos 35.
O gordão passa na pista. Acho que os caras o paqueram também.
Minha amiga insinua que eles gostaram de mim. Penso que eles gostam até de anão de jardim, naquela situação.
Mas sigo dançando, nessa paquera às avessas.
As pessoas perdem bolsas. Pagam bebidas que não beberam.
Desequilibram na pista. Brigam por nada com os namorados.
Copos circulam com líquidos indecifráveis. Mas é Absolut.
Inventam danças estilo João-bobo (cai, não cai).
As conversas são construtivas. Emboladas, mas construtivas.
Quase cinco horas da manhã e um dos bêbados bonitinhos me pergunta: já vai, tá cedo.
Opa, não tenho a menor dúvida, respondo. Ele não entende. É estranho sóbrios explicarem coisas a bêbados. Melhor evitar.
Chego em casa exausta, com ressaca de tanto dançar.
Tomo banho sem desequilibrar. Acho o edredon. Durmo de pijama.
Aquecida, sem lápis no olho e de dentes escovados. Não sinto fome.
Quando me olho no espelho, no dia seguinte, descubro, então, os benefícios de tão sofrida abstinência.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
As Meninas – parte 1
Dei-lhe o nome de Brisa no livro que nunca terminou.
Sua amizade é suave, refrescante.
É do tipo que areja as mentes ensimesmadas, sisudas pela rotina. Pelo tempo, pelo vento.
Contei-lhe que seria a brisa das páginas.
“Eu ia ser a libélula, né?”, ela me perguntava às vezes.
Porque ela é assim. Nasceu pra fazer indagações às avessas.
“Hoje podia tanto ser ontem pra gente ter mais tempo para dormir”, soltou ela no elevador, ao término do nosso encontro de Natal de 2007, já com seis (*).
Ela também muda o calendário em ano bissexto.
“E se a quinta-feira santa cair na sexta?”
Só pude responder que, sendo assim, Sexta-feira da paixão ia virar sábado e talvez Jesus não fosse gostar muito de ressuscitar só numa segunda-feira qualquer.
Tem música que é só dela. Duas, pelo menos.
Ontem ouvi uma delas no rádio. Nunca soube quem toca isso, porque só ela sabe a letra inteirinha em inglês. E ensinou a todas nós. Diz algo mais ou menos assim: que quando se olha pra trás, entre outras tantas coisas, nunca se quer dizer adeus.
“Deixe de lado esse baixo-astral, erga a cabeça, enfrente o mal”, diz a outra canção que ela sempre recorda, num samba, numa roda, num dia de tristeza.
Ela muda o nome de cidades. Já nos obrigou a tomar sopa de repolho para ficarmos todas magras.
É a única sarada da turma, mas nunca vai ser igual às ratas de academia (graças a Deus, seja lá em que dia seu filho tenha ressuscitado).
Larga jornalismo por medicina e ainda assim consegue levar a vida com a leveza que só as brisas podem ter.
Hoje podia tanto ser ontem para que eu pudesse passar mais horas e mais dias da minha vida com você.
(*)NOTA DE RODAPÉ - Somos cinco, mas uma tem bebê. Por isso viramos seis.
Sua amizade é suave, refrescante.
É do tipo que areja as mentes ensimesmadas, sisudas pela rotina. Pelo tempo, pelo vento.
Contei-lhe que seria a brisa das páginas.
“Eu ia ser a libélula, né?”, ela me perguntava às vezes.
Porque ela é assim. Nasceu pra fazer indagações às avessas.
“Hoje podia tanto ser ontem pra gente ter mais tempo para dormir”, soltou ela no elevador, ao término do nosso encontro de Natal de 2007, já com seis (*).
Ela também muda o calendário em ano bissexto.
“E se a quinta-feira santa cair na sexta?”
Só pude responder que, sendo assim, Sexta-feira da paixão ia virar sábado e talvez Jesus não fosse gostar muito de ressuscitar só numa segunda-feira qualquer.
Tem música que é só dela. Duas, pelo menos.
Ontem ouvi uma delas no rádio. Nunca soube quem toca isso, porque só ela sabe a letra inteirinha em inglês. E ensinou a todas nós. Diz algo mais ou menos assim: que quando se olha pra trás, entre outras tantas coisas, nunca se quer dizer adeus.
“Deixe de lado esse baixo-astral, erga a cabeça, enfrente o mal”, diz a outra canção que ela sempre recorda, num samba, numa roda, num dia de tristeza.
Ela muda o nome de cidades. Já nos obrigou a tomar sopa de repolho para ficarmos todas magras.
É a única sarada da turma, mas nunca vai ser igual às ratas de academia (graças a Deus, seja lá em que dia seu filho tenha ressuscitado).
Larga jornalismo por medicina e ainda assim consegue levar a vida com a leveza que só as brisas podem ter.
Hoje podia tanto ser ontem para que eu pudesse passar mais horas e mais dias da minha vida com você.
(*)NOTA DE RODAPÉ - Somos cinco, mas uma tem bebê. Por isso viramos seis.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
O crime de Josefa
Josefa procurava emprego e como tinha carta de recomendação foi chamada para uma conversa na casa de Dona Solange.
A madame explica com detalhes todas as funções futuras de Josefa: preparar o café da manhã para a família, arrumar todos os quartos, trocar roupa de cama dia sim, dia não, recolher as toalhas molhadas que as crianças costumam deixar jogadas em cima das camas, encerar, espanar, varrer, abrir todas as janelas para deixar o sol entrar, molhar as plantas do jardim, preparar então o almoço, o jantar.
Haverá dias em que será necessária a preparação de lanche da tarde especial para visitas do chá das cinco.
Familiarizada com todas as tarefas, Josefa não pestaneja, não desanima, segue rígida, atenta a Dona Solange, reparando no tamanho imenso da casa.
“E então, para esse serviço, quanto você cobraria?”
Ela permanece calada. Dona Solange imagina que vá cobrar caro.
“E então, Josefa, pode dizer.”
Josefa balança a cabeça, como se de imediato já tivesse concordado com tudo, independente do preço.
“Vai cobrar um absurdo”, sentencia calada Dona Solange.
“Com penso ou sem penso?”, questiona Josefa.
“Hein?”, retruca Dona Solange.
“Com penso ou sem penso?”, reitera a indagação.
É a vez de Dona Solange se calar por alguns minutos.
Ela mira Josefa. Balança a cabeça levemente. Sacode ligeiramente os ombros.
“Por que se for com penso sai mais caro. Sem penso é mais barato.”
Dona Solange tenta se ajeitar na cadeira, num evidente sinal de desconforto. Primeiro se sente inculta. Depois acha que é pegadinha. Classifica mentalmente de abominável seu preconceito subliminar por imaginar que não é obrigada a dominar gírias de mucamas, nomes de produtos de limpeza.
Balança de novo os ombros. Passa a mão na testa. Mira Josefa. Leva as mãos à frente do corpo(o gesto `como assim?´)
“Se penso o que vai ser no café, no almoço, no lanche, no jantar, a roupa que vai nas camas, a cor das toalhas, aí é mais caro. Se não tem penso, mais barato.”
Dona Solange repete o gesto. Não responde, retoma algumas observações sobre os cuidados com o lar.
Mais alguns minutos de conversa, Dona Solange agradece, diz que vai pensar e telefonar.
Josefa não fala o preço.
Deixa a mansão caminhando com a certeza de que Dona Solange não ligaria.
E pensa que o crime não compensa.
ADVERTÊNCIA:
Os nomes uilizados neste conto são pura ficção. Os fatos, para meu deleite, reais. Eu juro, Camys. Eu juro, Lu. Bi,você não vai ler, mas é verdade. A Gisa pode confirmar tudo. Eu juro.
A madame explica com detalhes todas as funções futuras de Josefa: preparar o café da manhã para a família, arrumar todos os quartos, trocar roupa de cama dia sim, dia não, recolher as toalhas molhadas que as crianças costumam deixar jogadas em cima das camas, encerar, espanar, varrer, abrir todas as janelas para deixar o sol entrar, molhar as plantas do jardim, preparar então o almoço, o jantar.
Haverá dias em que será necessária a preparação de lanche da tarde especial para visitas do chá das cinco.
Familiarizada com todas as tarefas, Josefa não pestaneja, não desanima, segue rígida, atenta a Dona Solange, reparando no tamanho imenso da casa.
“E então, para esse serviço, quanto você cobraria?”
Ela permanece calada. Dona Solange imagina que vá cobrar caro.
“E então, Josefa, pode dizer.”
Josefa balança a cabeça, como se de imediato já tivesse concordado com tudo, independente do preço.
“Vai cobrar um absurdo”, sentencia calada Dona Solange.
“Com penso ou sem penso?”, questiona Josefa.
“Hein?”, retruca Dona Solange.
“Com penso ou sem penso?”, reitera a indagação.
É a vez de Dona Solange se calar por alguns minutos.
Ela mira Josefa. Balança a cabeça levemente. Sacode ligeiramente os ombros.
“Por que se for com penso sai mais caro. Sem penso é mais barato.”
Dona Solange tenta se ajeitar na cadeira, num evidente sinal de desconforto. Primeiro se sente inculta. Depois acha que é pegadinha. Classifica mentalmente de abominável seu preconceito subliminar por imaginar que não é obrigada a dominar gírias de mucamas, nomes de produtos de limpeza.
Balança de novo os ombros. Passa a mão na testa. Mira Josefa. Leva as mãos à frente do corpo(o gesto `como assim?´)
“Se penso o que vai ser no café, no almoço, no lanche, no jantar, a roupa que vai nas camas, a cor das toalhas, aí é mais caro. Se não tem penso, mais barato.”
Dona Solange repete o gesto. Não responde, retoma algumas observações sobre os cuidados com o lar.
Mais alguns minutos de conversa, Dona Solange agradece, diz que vai pensar e telefonar.
Josefa não fala o preço.
Deixa a mansão caminhando com a certeza de que Dona Solange não ligaria.
E pensa que o crime não compensa.
ADVERTÊNCIA:
Os nomes uilizados neste conto são pura ficção. Os fatos, para meu deleite, reais. Eu juro, Camys. Eu juro, Lu. Bi,você não vai ler, mas é verdade. A Gisa pode confirmar tudo. Eu juro.
domingo, 13 de janeiro de 2008
Meu plantão médico
Sou do tipo que tem fascinação besta por seriados de TV. ER está na lista dos meus preferidos. Talvez porque é bom sentir um mínimo de realidade. Mas longe de você.
Confesso também que não sou obececada por doenças, hipocondríaca _ ainda que a minha crise crônica de amigdalite na infância e a convivência com a irmã médica tenham me ensinado a diferença entre aspirina e novalgina, amoxil e bactrin, quando apelar para o tandrilax se o dorflex não faz mais efeito.
Também gosto muito de bulas. Elas possuem um certo sarcasmo com efeito ao contrário. Você se sente o pior dos homens quando toma consciência das reações adversas que um medicamento pode provocar no teu corpo e, se tiver juízo, não vai sentir nenhuma delas.
Me senti num capítulo do ER quando a última crise de enxaqueca chegou. Ela já é minha antiga conhecida, mas desta vez resolveu inovar com uma tontura de tirar qualquer um do sério. Na sala de emergência, peguei a troca de turno dos médicos.
Pacientes são números. Eu era a número dois, com complicações de enxaqueca e definida como "caso neurológico".
Fiquei pensando se eles me achavam meio pancada, se suspeitavam que eu estava fingindo os sintomas. Porque meus reflexos neurológicos estavam ótimos. A tomografia não apontou nenhum traço fora do percurso normal. Ainda bem, diga-se de passagem.
A paciente três, coitada, péssima. Caso de bronquite aguda, no oxigênio. A moça tinha um pavor no olhar capaz de comover qualquer enfermeiro nazista.
A quatro estava dormindo há mais de cinco horas, dopada por uma tarja preta qualquer. O filho a largou lá, sozinha na maca, dizendo que voltava. Nas noves horas que eu passei na emergência o rapaz não retornou.
O um era um caso difícil. Estava crente que tinha tido uma parada cardíaca. Os médicos garantiram que nada estava entupido, mas ele vestiu uma cara de cardiopata e não queria sair daquele leito de jeito nenhum.
Enquanto eu observava o meu ER, pensava na graça de ser sã. Como a realidade pode ser bem mais colorida se você tem consciência de todos os males que pode causar a seu corpo. E se faz de tudo para mantê-los bem longe de você.
Pensei ainda nas razões que nos levam a ser tão cruéis e impiedosos com quem carrega e abriga nossa pobre alma. As horas mal dormidas, o coração travado, a alimentação de má qualidade, a angústia que resvala para cantos indefinidos do cérebro, a falta de compaixão diária, as doses excessivas de mau-humor, a raiva.
Pensei que canto pouco, tomo banhos rápidos. Que não ligo mais o som de manhã. Que abandonei o Flamenco, a acupuntura.
Tento comer direito, faço ginástica pelo menos alguns dias, não sou do tipo ranzinza. Mas aqui, agora, tomando flunarizina (um novo princípio ativo na minha vida, para os que sofrem de labirintite), sei que há algo mais que eu possa fazer por mim. Mais que ver ER nas noites de quinta-feira.
Confesso também que não sou obececada por doenças, hipocondríaca _ ainda que a minha crise crônica de amigdalite na infância e a convivência com a irmã médica tenham me ensinado a diferença entre aspirina e novalgina, amoxil e bactrin, quando apelar para o tandrilax se o dorflex não faz mais efeito.
Também gosto muito de bulas. Elas possuem um certo sarcasmo com efeito ao contrário. Você se sente o pior dos homens quando toma consciência das reações adversas que um medicamento pode provocar no teu corpo e, se tiver juízo, não vai sentir nenhuma delas.
Me senti num capítulo do ER quando a última crise de enxaqueca chegou. Ela já é minha antiga conhecida, mas desta vez resolveu inovar com uma tontura de tirar qualquer um do sério. Na sala de emergência, peguei a troca de turno dos médicos.
Pacientes são números. Eu era a número dois, com complicações de enxaqueca e definida como "caso neurológico".
Fiquei pensando se eles me achavam meio pancada, se suspeitavam que eu estava fingindo os sintomas. Porque meus reflexos neurológicos estavam ótimos. A tomografia não apontou nenhum traço fora do percurso normal. Ainda bem, diga-se de passagem.
A paciente três, coitada, péssima. Caso de bronquite aguda, no oxigênio. A moça tinha um pavor no olhar capaz de comover qualquer enfermeiro nazista.
A quatro estava dormindo há mais de cinco horas, dopada por uma tarja preta qualquer. O filho a largou lá, sozinha na maca, dizendo que voltava. Nas noves horas que eu passei na emergência o rapaz não retornou.
O um era um caso difícil. Estava crente que tinha tido uma parada cardíaca. Os médicos garantiram que nada estava entupido, mas ele vestiu uma cara de cardiopata e não queria sair daquele leito de jeito nenhum.
Enquanto eu observava o meu ER, pensava na graça de ser sã. Como a realidade pode ser bem mais colorida se você tem consciência de todos os males que pode causar a seu corpo. E se faz de tudo para mantê-los bem longe de você.
Pensei ainda nas razões que nos levam a ser tão cruéis e impiedosos com quem carrega e abriga nossa pobre alma. As horas mal dormidas, o coração travado, a alimentação de má qualidade, a angústia que resvala para cantos indefinidos do cérebro, a falta de compaixão diária, as doses excessivas de mau-humor, a raiva.
Pensei que canto pouco, tomo banhos rápidos. Que não ligo mais o som de manhã. Que abandonei o Flamenco, a acupuntura.
Tento comer direito, faço ginástica pelo menos alguns dias, não sou do tipo ranzinza. Mas aqui, agora, tomando flunarizina (um novo princípio ativo na minha vida, para os que sofrem de labirintite), sei que há algo mais que eu possa fazer por mim. Mais que ver ER nas noites de quinta-feira.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
Zizi, Zezete
Parece ser desse jeitinho charmoso que os pequenos franceses se referem às suas partes íntimas. Uma amiga minha, professora de jardim de infância, preferia dizer borboletinha e sapinho. Eu não consigo me imaginar portadora de uma borboleta justo lá, mas cada um chama o seu do que bem entende.
O fato é que esse negócio de zizi e zezete tem diferenças explícitas já detectadas pela sabedoria popular e outras inalcançáveis para qualquer vã filosofia.
Zizi: apresenta destreza invejável para assuntos relacionados à tecnologia, inovação digital, automobilística ou sonora.
Zezete: não sabe o que é tecla Mute (de TV ou dos aparelhos de som dos carros). Prefere, delicadamente, reduzir o barulho aos pouquinhos.
Zizi: ainda que não domine muito bem a mecânica e a engenharia elétrica, finge que sabe tudo a esse respeito e se arrisca a trocar chuveiro queimado e dar palpite sobre a qualidade e o desgaste de amortecedores. A ousadia pode dar muito errado, mas ele se acha um zizi.
Zezete: chora quando o carro faz barulho. Procura um amigo zizi para perguntar o que uma zezete faz com um automóvel estragado.
Zizi: tem vergonha (e ojeriza) de ir ao shopping comprar roupa porque acha sacanagem a vendedora tirar tanta coisa das estantes sendo que ele vai comprar no máximo uma ou duas peças.
Zezete: se a vendedora é chata, usa e abusa. Não compra nenhuma peça naquela loja, mas se dirige ao estabelecimento ao lado e se esbalda. De preferência circula com as sacolas do concorrente bem em frente à loja da vendedora chata.
Zizi: quando se emociona, movimenta o olhar para que ninguém veja a possibilidade do choro. Pode usar o velho método do cisco no olho.
Zezete: não consegue sentir nenhuma vergonha quando as luzes da sala de cinema se acendem e ela está lá, toda inchada, fungando.
Zizi: quando leva a paquera para a casa, no máximo tem água para oferecer. Provavelmente de torneira. (Sempre é bom registrar que, com a idade, os zizis surpreendem. Podem preparar não somente jantares deliciosos, com direito a vinho, como também te oferecer até panetone pela manhã).
Zezete: se é do tipo que mora sozinha, vai ter uma coisinha no congelador (um pão de queijo, por exemplo), um queijinho, um suquinho, frutinhas. E sabe fazer café.
Zizi: pode ser muito mais romântico que zezete
Zezete: pode ser muito mais fria que zizi
Zizi, Zezete: andam, igualmente, se sentindo sozinhos, falando de amores frustrados, chorando de forma escancarada ou despistada nos cinemas. Se encontram pouco, conversam quase nada. Mas imaginam que são uma espécie de mesma letra do alfabeto e ficam por aí, como zumbis, tentando formar algumas palavras.
p.s - A razão deste texto foi "A culpa é de Fidel". Ainda no meu momento cinéfila.
O fato é que esse negócio de zizi e zezete tem diferenças explícitas já detectadas pela sabedoria popular e outras inalcançáveis para qualquer vã filosofia.
Zizi: apresenta destreza invejável para assuntos relacionados à tecnologia, inovação digital, automobilística ou sonora.
Zezete: não sabe o que é tecla Mute (de TV ou dos aparelhos de som dos carros). Prefere, delicadamente, reduzir o barulho aos pouquinhos.
Zizi: ainda que não domine muito bem a mecânica e a engenharia elétrica, finge que sabe tudo a esse respeito e se arrisca a trocar chuveiro queimado e dar palpite sobre a qualidade e o desgaste de amortecedores. A ousadia pode dar muito errado, mas ele se acha um zizi.
Zezete: chora quando o carro faz barulho. Procura um amigo zizi para perguntar o que uma zezete faz com um automóvel estragado.
Zizi: tem vergonha (e ojeriza) de ir ao shopping comprar roupa porque acha sacanagem a vendedora tirar tanta coisa das estantes sendo que ele vai comprar no máximo uma ou duas peças.
Zezete: se a vendedora é chata, usa e abusa. Não compra nenhuma peça naquela loja, mas se dirige ao estabelecimento ao lado e se esbalda. De preferência circula com as sacolas do concorrente bem em frente à loja da vendedora chata.
Zizi: quando se emociona, movimenta o olhar para que ninguém veja a possibilidade do choro. Pode usar o velho método do cisco no olho.
Zezete: não consegue sentir nenhuma vergonha quando as luzes da sala de cinema se acendem e ela está lá, toda inchada, fungando.
Zizi: quando leva a paquera para a casa, no máximo tem água para oferecer. Provavelmente de torneira. (Sempre é bom registrar que, com a idade, os zizis surpreendem. Podem preparar não somente jantares deliciosos, com direito a vinho, como também te oferecer até panetone pela manhã).
Zezete: se é do tipo que mora sozinha, vai ter uma coisinha no congelador (um pão de queijo, por exemplo), um queijinho, um suquinho, frutinhas. E sabe fazer café.
Zizi: pode ser muito mais romântico que zezete
Zezete: pode ser muito mais fria que zizi
Zizi, Zezete: andam, igualmente, se sentindo sozinhos, falando de amores frustrados, chorando de forma escancarada ou despistada nos cinemas. Se encontram pouco, conversam quase nada. Mas imaginam que são uma espécie de mesma letra do alfabeto e ficam por aí, como zumbis, tentando formar algumas palavras.
p.s - A razão deste texto foi "A culpa é de Fidel". Ainda no meu momento cinéfila.
domingo, 6 de janeiro de 2008
Os outros, a vida, as sonatas
As palavras num alemão desencontrado corriam a tela. E eu perplexa, no meio da sala de cinema, sozinha, sem conseguir me mexer. Sim, tinha dificuldade em respirar. Talvez porque "A vida dos outros" te faça pensar em coisas únicas.
A única inspiração de um escritor.
A possibilidade irreal de um único amor.
As poucas ou únicas almas de caráter.
O livro que te mudou.
A história que você quis escrever.
A cena que passou correndo pela janela e que você não registrou.
A memória que só você tem.
O segredo que é seu.
A risada que você nunca explicou. O choro que guardou.
O seu melhor desempenho.
O maior orgulho. O que fez diferença, mas foi silencioso.
A única pessoa que te admira e você não conhece.
A pessoa que você acha que é única e é desprezível.
A maior dor, a melhor música.
Você, na melhor versão.
E, ao final, bem ao final, só para aqueles que têm paciência, descobre-se, além de tudo, que o filme (ou a sonata) de um homem bom foi feito para uma mulher.
Nas telas. Não percam. É único.
A única inspiração de um escritor.
A possibilidade irreal de um único amor.
As poucas ou únicas almas de caráter.
O livro que te mudou.
A história que você quis escrever.
A cena que passou correndo pela janela e que você não registrou.
A memória que só você tem.
O segredo que é seu.
A risada que você nunca explicou. O choro que guardou.
O seu melhor desempenho.
O maior orgulho. O que fez diferença, mas foi silencioso.
A única pessoa que te admira e você não conhece.
A pessoa que você acha que é única e é desprezível.
A maior dor, a melhor música.
Você, na melhor versão.
E, ao final, bem ao final, só para aqueles que têm paciência, descobre-se, além de tudo, que o filme (ou a sonata) de um homem bom foi feito para uma mulher.
Nas telas. Não percam. É único.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
Contos do salão de beleza
Se os homens soubessem a riqueza antropológica contida num salão inventariam desculpas para acompanhar a mulher ou a amiga numa escova de chocolate ou encarariam uma depilação masculina sem freios ou temores.
E eu os aviso: trata-se de experiência inesquecível.
Mari, a depiladora, conta seu último assalto. Descia pelo Largo da Batata, cansadíssima, com o dinheiro do ônibus, o celular recém adquirido e quase nada na bolsa. O assaltante chega e exige dela o celular.
"Ah, não vou dar não. Nem pensar." Ele se assusta. Ela continua o falatório. "Acabei de comprar, está na terceira prestação, trabalho muito pra comprar minhas coisas. Não dou, não!"
O cara fica sem ação. Se conforma. Talvez entenda essa coisa de prestações. Manda ela ir andando. "Vou mesmo, e com meu celular."
Ela entra no ônibus, vai pra casa do namorado. De madrugada, acorda ao lado dele, em prantos. Conta do assalto. O namorado não acredita. Olha na bolsa, vê o celular. Diz que ela deve ter sonhado, e para voltar a dormir em paz.
A mulherada, já com as unhas pintadas, cabelos esvoaçantes, pele lisinha, ri da coragem da depiladora. E ela invoca com graça mais traumas antigos. "O primeiro bilau que eu vi foi de estuprador. Mas o pior é que não me traumatizou. Tô vendo bilau até hoje."
No reino da beleza, realidade e miséria andam sempre disfarçadas.
E eu os aviso: trata-se de experiência inesquecível.
Mari, a depiladora, conta seu último assalto. Descia pelo Largo da Batata, cansadíssima, com o dinheiro do ônibus, o celular recém adquirido e quase nada na bolsa. O assaltante chega e exige dela o celular.
"Ah, não vou dar não. Nem pensar." Ele se assusta. Ela continua o falatório. "Acabei de comprar, está na terceira prestação, trabalho muito pra comprar minhas coisas. Não dou, não!"
O cara fica sem ação. Se conforma. Talvez entenda essa coisa de prestações. Manda ela ir andando. "Vou mesmo, e com meu celular."
Ela entra no ônibus, vai pra casa do namorado. De madrugada, acorda ao lado dele, em prantos. Conta do assalto. O namorado não acredita. Olha na bolsa, vê o celular. Diz que ela deve ter sonhado, e para voltar a dormir em paz.
A mulherada, já com as unhas pintadas, cabelos esvoaçantes, pele lisinha, ri da coragem da depiladora. E ela invoca com graça mais traumas antigos. "O primeiro bilau que eu vi foi de estuprador. Mas o pior é que não me traumatizou. Tô vendo bilau até hoje."
No reino da beleza, realidade e miséria andam sempre disfarçadas.
Problemática
Quase madrugada, marmitex debaixo do braço, os dois trocam idéias no metrô antes de chegar à construção.
"Você sabe a diferença de poblema e pobrema? Já vi gente falando as duas."
"Sei", responde certeiro o outro. E se cala. Respira, antes da sentença.
"Poblema é de matemática ou coisa de cabeça. Pobrema é o que a gente tem lá em casa."
O outro balança a cabeça, totalmente de acordo. E tem olhar aliviado, depois de acumular tantas dúvidas com a estranha ortografia portuguesa.
Na mesa do bar, anos ou meses mais tarde, repetida a história sucessivas vezes, com acréscimos e decréscimos que os contos costumam ter, Gisa formula a nova teoria: "E problema é falta de dinheiro, porque além de ser matemática é o que eu tenho lá em casa. E ainda dá dor de cabeça".
"Você sabe a diferença de poblema e pobrema? Já vi gente falando as duas."
"Sei", responde certeiro o outro. E se cala. Respira, antes da sentença.
"Poblema é de matemática ou coisa de cabeça. Pobrema é o que a gente tem lá em casa."
O outro balança a cabeça, totalmente de acordo. E tem olhar aliviado, depois de acumular tantas dúvidas com a estranha ortografia portuguesa.
Na mesa do bar, anos ou meses mais tarde, repetida a história sucessivas vezes, com acréscimos e decréscimos que os contos costumam ter, Gisa formula a nova teoria: "E problema é falta de dinheiro, porque além de ser matemática é o que eu tenho lá em casa. E ainda dá dor de cabeça".
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