terça-feira, 25 de março de 2008

A visão do inferno, segundo a psicanálise

A relação causal "feriado/sentimento de culpa por excessos" deve ter sido algum tópico da psicanálise (Por que Freud não tratou disso em ´O princípio do prazer`?), mas enquanto o meu vasto inconsciente não fornece respostas lógicas eu simplesmente resolvo ser previsível.
Ou seja, fui à academia segunda-feira, após cinco dias de pura (muito pura mesmo) diversão.
Esclareço que as academias nunca foram lugares que me inspiraram confiança. Mas _olha o inconsciente aí, sempre a me trair_ descobri também na folga do feriadão que freqüentei várias delas ao longo dos anos. Tudo porque fui arrumar gavetas e achei várias carteirinhas velhas, feitas no momento URRUUUUUUUU, quando você por um lapso acha que realmente vai gostar daquilo.
Parêntesis sobre meu longo período de freqüência: nunca consegui virar uma gostosa, ainda que inconscientemente talvez buscasse isso ao longo dos anos.
A minha mais recente academia é hype. É vibe. É in. Uma grande rede paulistana.
Só estamos nos freqüentando (eu e a academia que é de flipar, segundo os modernos) porque eu ganhei três meses grátis. Mal de grana, com essa sombra psicanalítica e alguns anos a mais a me perseguirem, não consegui simplesmente abandonar a ginástica.
O primeiro contato na academia hypada me flipou. Você é obrigado a conseguir resultados.
Quando eu simplesmente relatei ao professor de musculação que meu único objetivo era o bem-estar e a "manutenção" daquilo que meu corpo já possui, ele me olhou com uma cara de "ela não tem espelho em casa" e passou meia hora me explicando que minha falta de ambição e perseverança me levariam a não ter a ficha amarela (veja bem, a amarela) e que eu teria que adquirir uma simples fichinha cor salmão (que deve ter algum apelido nada hype entre os entendidos do recinto, mas não fiquei curiosa em saber).
No primeiro dia de aula, embora sem traumas anteriores apesar da classificação salmão, eu procurei a minha fichinha entre mais ou menos umas quatro caixas de fichas amarelas. Fiquei com um certo receio de, sendo salmão, desfilar de cabeça erguida ao lado dos amarelos. Paciência. Respirei e fui.
Mas ontem, na volta do feriadão, precisei recorrer a Freud, Lacan e Jung de uma só vez para tentar sobreviver.
Explico o cenário: nove da noite. Quarenta esteiras. Quinze telonas de TV. Globo, Telecine, um canal só com múltipla escolha sobre qual é a melhor forma de perder a barriga. Vários grupos de amarelos. Nenhum salmão.
Descubro na academia hypada que há subtipos de eletrônico: o eletrônico-pagode (da aula de spinning, popularizado, animado, fácil de cantar/bater); o eletrônico-cult (para os que caminham sozinhos pelas esteiras); o eletrônico-axé (cantado em coro pelos praticantes assíduos da musculação); o eletrônico-de-raiz (para o início das aulas de GAP - glúteo, abdominal e perna _, estúpido...)
Não é possível identificar qual eletrônico predomina. Começo a ficar tonta. Quase caio da esteira. Os amarelos me olham. Estou correndo muito devagar. Estou suando. Meu coração toca em eletrônico-raiz. A perna treme ao som do eletrônico-pagode. Minha irritação poderia ser expressa em eletrônico-axé.
Resolvo encarar os amarelos. Nenhum deles é feliz.
Aciono o botão de emergência da esteira.
Vou pra casa. Bebo vinho. Faço jantar.
Tenho vontade de cantarolar a Nona.
Escuto Chico no carro.
Penso nas fichas salmão.
Meu próximo passo é roubá-las todas.
E procurar sociedade para abrir um novo negócio. Hypado.

domingo, 16 de março de 2008

O pequeno menino ou O menino que não gostava de ser pequeno

O dia amanheceu amarelo, com cheiro de flor e fruta, som de passarinhos.
Ainda que fosse uma linda manhã, Marcelo permanecia de mau-humor.
Tudo porque se achava pequeno. Não gostava de ser pequeno.
Ávidos por brincadeiras em horas que imaginavam ser certamente coloridas, João e Maria, amigos de Marcelo, decidiram convencê-lo de que havia razão para brincar, ainda que sendo pequeno.
Explicaram a ele que é possível um menino pequeno fazer coisas inimagináveis.
Marcelo não se convenceu. João e Maria insistiram numa brincadeira de esconde-esconde. Em poucas horas, Marcelo venceu o jogo. É que às vezes a condição de miúdo nos permite entrar em lugares apertadinhos, até mesmo arriscados.
Ficamos lá, pequenos, e ninguém nos vê.
Na corrida pelos campos, o corpo de Marcelo outra vez lhe garantiu a redenção. Apareceu, de repente, um javali selvagem no caminho. Marcelo avistou, a alguns metros, um cano de cimento jogado entre as árvores. Fez troça para atrair o animal, correu e entrou, de caso pensado, pelo cano.
O javali grande, coitado, tentou seguir o pequeno e ficou ali, encurralado.
João e Maria sorriram. Sabiam que Marcelo, agora, não tinha raiva do corpo.
O dia amanhaceu bonito de novo e Marcelo acordou rindo na cama. Lembrou-se das aventuras do dia anterior e pensou em como foi grande sua coragem para salvar os amigos. Descobriu que isso basta para não tornar ninguém pequeno.

NOTA DE RODAPÉ - Essa história foi escrita por Luíza Delgado, uma menina ainda pequena, que pediu para a titia Lucinha reproduzi-la, aqui neste blog, com as palavras de gente (que acha que é) grande.

segunda-feira, 3 de março de 2008

A semi-gostosa

Humanos masculinos são mesmo surpreendentes.
Pensava que a cena de meninos levantando plaquinhas na sala de aula com as `notas´ para as meninas era só memória de infância.
Não.
Eles mudam as técnicas, mas não a essência.
Mais velhos, falam de forma desabrida se a garota merece ou não um 10.
`Ela é semi-gostosa´, explicou um colega do trabalho a outro.
Escuto a frase cifrada e não resisto.
Vou tirar satisfação.
Definição dele: `Tem alguns excessos em alguns lugares, mas...´
Interrompo, para não ouvir o que não devo.
E eu mesma acrescento: `Não é terra arrasada. Permanece terreno produtivo´.
Os dois concordam com meu seco comentário sobre os tecidos da moça.
Me afasto. Eles continuam tecendo definições sobre a semi-gostosa.
Identificam outras semi-gostosas no recinto. Falam de novo das gostosas.
Já estou longe. Mas não paro de pensar na lógica da linha evolutiva traçada pelos machos para as fêmeas.
Diante de tanta sabedoria masculina, só nos resta (sobretudo às semi-gostosas) voltar a usar as plaquinhas.
Será difícil dar um 10.