segunda-feira, 16 de junho de 2008

Ao Largo

Não sei se o nome surgiu pelo comércio de batatas. Mas as vejo, em larga escala, entulhadas em carrinhos de supermercado e à venda em várias banquinhas.
Vejo aqui no Largo da Batata um conto de fadas só de gatas borralheiras, sem direito a cinderelas. Mas com muitos castelos.
O Luzes de Miami brilha resplandecente após as 23h, com flashes azuis e vermelhos em neon que deixam qualquer pedestre desavisado hipnotizado.
O Paulinho, Paulinho, Paulinho não deixa dúvidas sobre a importância da hereditariedade. Tradição, contos que passam de pai para filho.
Para os que têm sede, o Goela Seca. De tudo pode oferecer.
A famosa casa de pesca fica ao lado da sapataria e da loja de biscoitos. Muitas gatas, as borralheiras, saboreiam os de polvilho nos pontos de ônibus.
Príncipes não encantados buscam milho verde ralado no carrinho que improvisa o trailer de sanduíche.
Adolescentes cansados usam o fliper; pais cansados pensam em entrar no sex shop escondido aos fundos da lojinha de lingerie.
A trilha sonora é estridente.
Descobre-se no Largo quem é a dupla Hudson e Edson.
Descobre-se sobre histórias sem varinha de condão.
Descobre-se sobre a impossibilidade de reverter alguns feitiços.
Descobre-se algo sobre quem vive nesses castelos, sempre ao largo.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Tomates verdes rústicos

Os cardápios sempre me surpreendem e me transportam para um estágio de profundo questionamento sobre o verdadeiro sentido das palavras. "Sopa de tomate rústico", dizia um deles, aqui em Sampa. Uma amiga minha já fora censurada em Brasília por pedir pizza de tomate seco. A pizzaria lhe informou, em tom não polido, que só trabalhava com tomates frescos. Mas há ainda tomates rústicos? Até pensei que rústica pudesse ser a sopa. De qualquer forma, assustei-me. Rústico era mesmo o tomate.
Deixando um pouco os tomates de lado, lembrei-me, ao ver o cardápio paulista, de uma brincadeira aplicada por outro amigo, maníaco por listas. Perguntou-me quais seriam os dez atores e atrizes do mundo mais rudes. Citei alguns e ele me repreendeu, dizendo que alguns selecionados por mim eram talvez rústicos, mas não rudes.
A confusão tomou conta da minha mente, pois sempre imaginei que rudes e rústicos pudessem andar lado a lado. E realmente podem, dizem os santos dicionários, confirmando que se tratam de sinônimos. Graças a deus ele concordou que Jack Nicholson era rude. Ponto pra mim. Mas Lázaro Ramos era rústico, dizia ele.
Porém, é na sutileza que mora o perigo. Por que o tomate é rústico, e não rude? Sim, há alguma diferença forte, penso eu.
Os rudes são "não cultivados". Ou seja, um tomate jamais será rude. Os rudes são pouco delicados, pouco airosos. Estúpidos, por assim dizer. Selvagens, melhor dizendo. Violentos, impulsivos.
Os rústicos também são grosseiros, ignorantes, até rudes, admite-se. Mas são assim porque possuem uma boçalidade pueril, uma inocência adquirida no campo. Não, os tomates não são malcriados, nem incultos, sem arte. Aliás, vejo muita arte em ser um tomate. Tampouco são incivilizados. No entanto, tomates são vegetais que resistem bem às intempéries climáticas. Eureca!!!!! Há esse significado para rústico no santificado pai dos burros (aqueles incultos para as artes).
Bingo. Tomates são rústicos, sem sombra de dúvida.
Passei meses da minha vida tentando explicar para outros amigos as diferenças entre rudes e rústicos. Claro que jamais consegui.
Talvez o tomate seja um importante ponto de partida.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Nostalgia antecipada de Brasil

Nunca havia pensado sobre como me identifico com ele.
Mas onde é que eu vou sentar-me à mesa e ouvir casos mirabolantes de parteiras enquanto como pão de queijo e tomo um cafezinho? Onde, senão em Minas Gerais, vou reunir-me com os mais antigos amigos enquanto saboreio a cervejinha (porque o que é bom na minha terra leva um suave diminutivo) e o torresmim?
Há outro lugar, além do Rio, onde você se joga na informalidade, abusa dos chinelos, se enfia no sol, liberta o espírito, pára num trailler vagabundo e se sente uma verdadeira rainha no topo de um morro olhando para o Corcovado enquanto o seu chope não vem?
E existe coisa mais inesperada que acordar com um dia bonito e vê-lo terminar gemendo de frio enrolada no seu edredon, regado a vinho, pães e sopa, enquanto a garoa cai em São Paulo?
E onde os pastéis serão mais gostosos, as feirinhas serão tão abundantes, o trânsito tão irritante? Onde o meu taxista vai ser um baiano arretado que passa todo o trajeto da marginal me contando a triste história do colega sortudo que juntou "pra mais de 22 dois milhão" e perdeu tudo na mesma cruel jogatina do bicho?
Onde encontrarei nordestinos tão risonhos, gaúchos tão ensimesmados? E em que outro país do mundo eu seria bisneta de uma índia casada com um francês?
É, eu sabia que gostava dele, ainda que tivesse com ele uma relação de mãe enérgica que tem total consciência de todas as limitações do filho. Ou de amiga sincera, que não deixa de contar as verdades que ele merece ouvir sobre seus toscos comportamentos.
Mas agora que eu vou ficar um pouquinho longe sei que ele vai fazer falta. E arrisco-me a dizer que, na volta, provavelmente terei certeza de onde quero morar.