Ela mexia delicadamente os pés, sentada num sofá.
Levantava-se, girava-os novamente, fixando o fiapo de olhar na imagem do espelho.
A visão me paralisou.
A sandália que ela planejava comprar era prateada, cravejada de strass.
Salto alto.
Tatuagem de henna nos pés.
Unhas pintadas de negro.
Pés delicados, pele fina.
Entendi o sentido de fetiche, fetiche masculino por pés.
Seus pés eram a única parte visível do corpo.
Corpo encoberto por uma burca, a breve pista do deleite muçulmano na loja de sapatos de Whitechapel era o olhar.
Seduzida por aquela imagem de mulher, acho toda nudez desnecessária.
Só quero ter olhos abertos e os pés no chão.
sábado, 23 de agosto de 2008
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
"Susie and the thief", or my angel from Taiwan
Sempre acreditei no famoso 'anjo da viagem', aquela pessoa que inesperadamente surge para te dar uma mãozinha quando você está prestes a ter uma síncope nervosa diante das inúmeras dificuldades que é obrigado a enfrentar num país inóspito.
Só não estou congelada na porta do Palácio da Catharina nas redondezas de Moscou até hoje porque uma alma abençoada apareceu do além e me apontou a parada do ônibus para voltar ao meu hotel. Não sei de onde aquela mulher surgiu, do que ela era feita, e muito menos como ela entendeu que eu e minhas amigas estávamos perdidas num lugar quase deserto e sem a menor chance de abstrair nossa origem latina para ver algum sentido nas letrinhas do alfabeto cirílico. Mas sobrevivemos, graças ao nosso anjo da viagem.
Também poderia estar presa num sombrio calabouço na Estônia se o soldado da imigração não fosse um obcecado por futebol e, por sorte minha, capaz de associar o nome Brasil ao nome Ronaldo.
Numa periferia da Cidade do México, um velhinho me parou na porta do metrô sabe lá deus porque e, em seguida, me disse para tomar cuidado e obedecer "a fila dos homens e a fila das mulheres". O aviso, basicamente, me poupou de ter sido "amaciada" por vários mexicanos, cuja voracidade para tocar as moças no metrô levou o governo local a tomar medidas mais drásticas, tipo aquelas do jardim de infância, onde você coloca meninos de um lado e meninas do outro.
Aqui em Londres não poderia ser diferente. Ainda que já contasse com alguns anjos especiais (os amigos que moram aqui e que hoje são meu pão, minha comida, todo amor que há nessa vida), acabei me deparando com outro, de nova nacionalidade. Desta vez, meu anjo é do Taiwan.
Mei foi a primeira pessoa que conheci no alojamento de estudantes, no dia em que cheguei. Ela foi totalmente simpática, apesar do inglês sofrível, e eu quase me inclinei para cumprimentá-la, seguindo as normas orientais.
Estamos fazendo o mesmo curso de inglês, mas não na mesma turma, pois fiquei alguns níveis acima do dela, o que, por sorte minha, é um ótimo sinal. Vamos todos os dias juntas para a escola. E, aos poucos, meu anjo se revela. E revela seu inglês.
Certo dia ela me perguntou se eu iria ao piquenique no Hyde Park. Disse que sim. Falávamos sobre qual comida levaríamos e de repente ela pronuncia 'Susiiiii'. Eu entendo que provavelmente Susi devia ser alguma amiga que ela gostaria de convidar para o piquenique. Pergunto a ela se a Susie também vai ao Hyde Park. Ela diz que sim, mas precisava primeiro 'enrolar a Susie'. Eu fico com medo de perguntar o que isso significa. Alguns minutos depois, pergunto se Susiiiiiiii é mesmo uma pessoa. Ela grita, corre para o armário, pega uma alga, enrola com as mãos. Ufa!!! Depois de meia hora entendo que ela queria levar 'sushie' para o parque (gosto não se discute).
Outro dia me contou que uma amiga dela da China tinha quatro empregos aqui em Londres e tinha que ralar muito porque o marido, em Taiwan, era 'shif' e ganhava muito pouco. "Thief?", perguntei assustada, já imaginando a pobrezinha da chinesa guardando dinheiro pra visitar o marido preso em Taiwan. "Yes", ela responde. Pergunto de novo o que ele roubou no Taiwan. Ela me olha assustada. Eu digo: Mei, você acabou de dizer que o cara é ladrão. Ela se corrige, desesperada. "No thief, no thief... Shif". "What shif means, Mei", eu pergunto de novo. What is his job in Taiwan? "He cooks", ela responde. "Chef, Mei, he is a Chef!!!! He is not a shif."
Apesar de nossos desencontros linguísticos, sem a Mei eu não teria tido paciência para esperar por duas semanas até que a conexão de internet funcionasse em meu quarto. Caso não tivesse ouvido atentamente os conselhos alados do oriente, teria surrado a árabe que é responsável pelo 'helpdesk' no setor de informática da universidade (e ainda bem que não seguem aqui a Lei de Talião).
Meu anjo do Taiwan me ensina a conseguir os melhores descontos para estudantes, me mostra todas as novidades tecnológicas que me permitem ter televisão, rádio e telefone no notebook, bate no meu quarto quando percebe que eu perdi a hora e vou chegar tarde na escola. Onde eu arrumaria grampeador, secador de cabelo e furador se não fosse a Mei? E imagine se eu, by myself, iria me preocupar em fazer todos os cartões de supermercados para acumular pontos e ganhar alguma coisa no futuro (ainda que meu ceticismo ocidental não me permita acreditar na eficácia disso).
O que mais me impressiona é a humildade do meu anjo, o que tem me feito entender a lógica oriental e me obrigado a refletir sobre o rasteiro sentido da vida segundo a lógica do Ocidente. Mei me contou que é budista. A vida, para ela, só tem sentido se for para ajudar quem precisa. Isso explica porque ela aparece na aula com uma pomada chinesa especial para bolhas porque está preocupada com o pé em frangalhos da nossa colega belga que insiste em usar sandálias e não tênis. 'Sempre tente sentir o que o outro sente' é o slogan que resume a filosofia de vida desse anjo taiwanense. Também teria me achado incapaz de manter um relacionamento à distância duas semanas depois de ter chegado aqui, caso não tivesse dado ouvidos à sabedoria do oriente.
Dei a ela um novo apelido: 'Magaveir' (ela sempre vai ter uma solução para tudo, ou pelo menos para todos os meus problemas e dilemas tolos). Ela sorriu, mas achou exagerado demais, diante das 'tão pequenas coisas' que faz por mim.
Típico dos anjos. São o que são. Não querem nada em troca.
Só não estou congelada na porta do Palácio da Catharina nas redondezas de Moscou até hoje porque uma alma abençoada apareceu do além e me apontou a parada do ônibus para voltar ao meu hotel. Não sei de onde aquela mulher surgiu, do que ela era feita, e muito menos como ela entendeu que eu e minhas amigas estávamos perdidas num lugar quase deserto e sem a menor chance de abstrair nossa origem latina para ver algum sentido nas letrinhas do alfabeto cirílico. Mas sobrevivemos, graças ao nosso anjo da viagem.
Também poderia estar presa num sombrio calabouço na Estônia se o soldado da imigração não fosse um obcecado por futebol e, por sorte minha, capaz de associar o nome Brasil ao nome Ronaldo.
Numa periferia da Cidade do México, um velhinho me parou na porta do metrô sabe lá deus porque e, em seguida, me disse para tomar cuidado e obedecer "a fila dos homens e a fila das mulheres". O aviso, basicamente, me poupou de ter sido "amaciada" por vários mexicanos, cuja voracidade para tocar as moças no metrô levou o governo local a tomar medidas mais drásticas, tipo aquelas do jardim de infância, onde você coloca meninos de um lado e meninas do outro.
Aqui em Londres não poderia ser diferente. Ainda que já contasse com alguns anjos especiais (os amigos que moram aqui e que hoje são meu pão, minha comida, todo amor que há nessa vida), acabei me deparando com outro, de nova nacionalidade. Desta vez, meu anjo é do Taiwan.
Mei foi a primeira pessoa que conheci no alojamento de estudantes, no dia em que cheguei. Ela foi totalmente simpática, apesar do inglês sofrível, e eu quase me inclinei para cumprimentá-la, seguindo as normas orientais.
Estamos fazendo o mesmo curso de inglês, mas não na mesma turma, pois fiquei alguns níveis acima do dela, o que, por sorte minha, é um ótimo sinal. Vamos todos os dias juntas para a escola. E, aos poucos, meu anjo se revela. E revela seu inglês.
Certo dia ela me perguntou se eu iria ao piquenique no Hyde Park. Disse que sim. Falávamos sobre qual comida levaríamos e de repente ela pronuncia 'Susiiiii'. Eu entendo que provavelmente Susi devia ser alguma amiga que ela gostaria de convidar para o piquenique. Pergunto a ela se a Susie também vai ao Hyde Park. Ela diz que sim, mas precisava primeiro 'enrolar a Susie'. Eu fico com medo de perguntar o que isso significa. Alguns minutos depois, pergunto se Susiiiiiiii é mesmo uma pessoa. Ela grita, corre para o armário, pega uma alga, enrola com as mãos. Ufa!!! Depois de meia hora entendo que ela queria levar 'sushie' para o parque (gosto não se discute).
Outro dia me contou que uma amiga dela da China tinha quatro empregos aqui em Londres e tinha que ralar muito porque o marido, em Taiwan, era 'shif' e ganhava muito pouco. "Thief?", perguntei assustada, já imaginando a pobrezinha da chinesa guardando dinheiro pra visitar o marido preso em Taiwan. "Yes", ela responde. Pergunto de novo o que ele roubou no Taiwan. Ela me olha assustada. Eu digo: Mei, você acabou de dizer que o cara é ladrão. Ela se corrige, desesperada. "No thief, no thief... Shif". "What shif means, Mei", eu pergunto de novo. What is his job in Taiwan? "He cooks", ela responde. "Chef, Mei, he is a Chef!!!! He is not a shif."
Apesar de nossos desencontros linguísticos, sem a Mei eu não teria tido paciência para esperar por duas semanas até que a conexão de internet funcionasse em meu quarto. Caso não tivesse ouvido atentamente os conselhos alados do oriente, teria surrado a árabe que é responsável pelo 'helpdesk' no setor de informática da universidade (e ainda bem que não seguem aqui a Lei de Talião).
Meu anjo do Taiwan me ensina a conseguir os melhores descontos para estudantes, me mostra todas as novidades tecnológicas que me permitem ter televisão, rádio e telefone no notebook, bate no meu quarto quando percebe que eu perdi a hora e vou chegar tarde na escola. Onde eu arrumaria grampeador, secador de cabelo e furador se não fosse a Mei? E imagine se eu, by myself, iria me preocupar em fazer todos os cartões de supermercados para acumular pontos e ganhar alguma coisa no futuro (ainda que meu ceticismo ocidental não me permita acreditar na eficácia disso).
O que mais me impressiona é a humildade do meu anjo, o que tem me feito entender a lógica oriental e me obrigado a refletir sobre o rasteiro sentido da vida segundo a lógica do Ocidente. Mei me contou que é budista. A vida, para ela, só tem sentido se for para ajudar quem precisa. Isso explica porque ela aparece na aula com uma pomada chinesa especial para bolhas porque está preocupada com o pé em frangalhos da nossa colega belga que insiste em usar sandálias e não tênis. 'Sempre tente sentir o que o outro sente' é o slogan que resume a filosofia de vida desse anjo taiwanense. Também teria me achado incapaz de manter um relacionamento à distância duas semanas depois de ter chegado aqui, caso não tivesse dado ouvidos à sabedoria do oriente.
Dei a ela um novo apelido: 'Magaveir' (ela sempre vai ter uma solução para tudo, ou pelo menos para todos os meus problemas e dilemas tolos). Ela sorriu, mas achou exagerado demais, diante das 'tão pequenas coisas' que faz por mim.
Típico dos anjos. São o que são. Não querem nada em troca.
sábado, 16 de agosto de 2008
Do you eat flowers?????
Além dos caixas do Tesco, eu também nunca vou entender as conversas das crianças londrinhas. Especialmente se forem semi-alfabetizadas. É demais pra mim.
Hoje, porém, conheci Alex, um fofo baby londrino de dois anos.
E posso dizer que nossa comunicação foi bastante eficaz.
Alex me deu a bochecha para um beijo, depois de um pedido meu.
Deixou ainda que eu colocasse "cream com blueberries" em sua boca. Limpamos a boca, em seguida (posso dizer que o estado não estava lá essas coisas).
Ainda pude ser rude com Alex, que não só comeu cream, chocolate cake, pudding, pasta, salad, everything else, and also... flowers.
Ele achou várias flores vermelhas no jardim da vovó e nem pensou duas vezes: sacou tudo goela abaixo. E eu, meio que sem saber o que fazer diante da imobilidade da mãe inglesa do baby, perguntei a ele: Do you eat flowers???? E ele pensou, pensou, pensou. "No", me disse meio com medo de ser a resposta errada. "So", eu completei. E isso foi o suficiente para Alex entender que não é uma jardineira.
Na despedida, vários "bye, bye, bye", alguns gestos e um sorriso arregalado.
Minha primeira "typical afternoon with a british family" foi fantástica. Ainda que eu não entendesse muito bem o que eles diziam, a comida estava fantástica e Alex me salvou de qualquer constrangimento ou isolamento.
Ele encheu esse vazio que eu sinto aqui dentro de vez em quando, me fez esquecer as minhas dificuldades de comunicação, trouxe à cena as minhas memórias dos meus sobrinhos ainda bebês, me fez lembrar da minha vontade de ser mãe...
Voltei feliz de trem para casa.
E morrendo de vontade de experimentar o gosto das flores.
Hoje, porém, conheci Alex, um fofo baby londrino de dois anos.
E posso dizer que nossa comunicação foi bastante eficaz.
Alex me deu a bochecha para um beijo, depois de um pedido meu.
Deixou ainda que eu colocasse "cream com blueberries" em sua boca. Limpamos a boca, em seguida (posso dizer que o estado não estava lá essas coisas).
Ainda pude ser rude com Alex, que não só comeu cream, chocolate cake, pudding, pasta, salad, everything else, and also... flowers.
Ele achou várias flores vermelhas no jardim da vovó e nem pensou duas vezes: sacou tudo goela abaixo. E eu, meio que sem saber o que fazer diante da imobilidade da mãe inglesa do baby, perguntei a ele: Do you eat flowers???? E ele pensou, pensou, pensou. "No", me disse meio com medo de ser a resposta errada. "So", eu completei. E isso foi o suficiente para Alex entender que não é uma jardineira.
Na despedida, vários "bye, bye, bye", alguns gestos e um sorriso arregalado.
Minha primeira "typical afternoon with a british family" foi fantástica. Ainda que eu não entendesse muito bem o que eles diziam, a comida estava fantástica e Alex me salvou de qualquer constrangimento ou isolamento.
Ele encheu esse vazio que eu sinto aqui dentro de vez em quando, me fez esquecer as minhas dificuldades de comunicação, trouxe à cena as minhas memórias dos meus sobrinhos ainda bebês, me fez lembrar da minha vontade de ser mãe...
Voltei feliz de trem para casa.
E morrendo de vontade de experimentar o gosto das flores.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
From blue to red
Penso em:
- casca de ovo esfarelada;
- pele rasgada;
- batata esmagada;
- farinha espalhada;
- vidro trincado;
- papel picado;
- lixo triturado;
- ar sugado;
Não sei mais definir saudade.
Estou um tanto oca hoje, agora.
Sou todos acima e mais um: alma desfacelada.
Tem dia que viro coração flutuante.
- casca de ovo esfarelada;
- pele rasgada;
- batata esmagada;
- farinha espalhada;
- vidro trincado;
- papel picado;
- lixo triturado;
- ar sugado;
Não sei mais definir saudade.
Estou um tanto oca hoje, agora.
Sou todos acima e mais um: alma desfacelada.
Tem dia que viro coração flutuante.
domingo, 3 de agosto de 2008
Don't cross the line
Além de aprender mandarim (já que 99% dos meus coleguinhas são chineses) em Londres e de não conseguir melhorar meu inglês, tenho certeza absoluta de que essa experiência aqui vai me obrigar a considerar o relógio no futuro.
Se o seu "tutor" diz que quer te ver às 9h15, isso significa que ele REALMENTE estará na salinha te esperando pelo menos desde às 9h14. Ou seja, aquele negócio de atrasar só cinco minutinhos não cola.
Mas isso ainda é novo e o meu estranho estado de espírito de eterna preguiça desde que eu cheguei aqui me permitia atrasar pelo menos dois minutinhos. Só que nesta semana a coisa ficou feia e eu realmente tive que correr.
É importante lembrar que a Lei de Murphy funciona com toda intensidade quando você está morando fora, desesperada, triste, inquieta, cheia de dúvidas. Claro que no dia da minha Tutor Class a polícia de Londres resolveu fechar TODAS as ruas nas redondezas da Euston Station.
"Tá de sacanagem", eu falei baixinho em português para um chinês do meu lado, assustadíssimo com a abordagem na minha língua nativa. Corrigindo-me logo em seguida, perguntei ao sujeito se ele sabia o que estava acontecendo. Nada.
Todos os policiais estavam lá do outro lado da rua, a pelo menos dois quilômetros. Olhei para um velhinho inglês do meu lado, que também não entendia o que estava acontecendo. Como se fóssemos cúmplices, resolvemos os dois atravessar a linha. Puxa, a estação estava tão pertinho, estávamos atrasados, sabe como é...
Pois bastou dar dois passos e uns três policiais britânicos apareceram num passe de mágica. Um deles olhou fixamente para mim e, correndo, na minha direção e na do velhinho, gritou: GO BACK........
Eu gelei. Virei as costas correndo e fiquei imaginando o pior:
a) ele vai atirar;
b) ele vai me multar (quase tão ruim quanto a primeira alternativa);
c) ele vai pedir meu passaporte e eu não tenho nenhum documento aqui;
d) ele vai gritar puto comigo e eu não vou entender nenhuma palavra do que ele vai dizer (só um pouco melhor que a letra a).
Mas... Enquanto pensava em tão nefastas possibilidades eu também andava apressada para que não houvesse tempo de o guardinha chegar perto de mim.
E eu sabia que o vovô inglês estava do meu lado. Éramos cúmplices. Olhei para o vovô, mentalizei em português e tenho certeza que ele entendeu: "Fofo, faz um favor pra mim... Fica aí conversando com o guardinha, distraindo-o, enquanto eu volto correndo, atravesso de novo a linha e sumo daqui em dois segundos. Afinal, você é um senhor inglês, ele vai achar que você só atravessou a linha porque está gagá e não vai acontecer nadica de nada com você. Já comigo...".
Pronto. O vovô entendeu. Acho até que ele me fez um sinal. Run, Lola, run. The situation is under control.
Enquanto eu andava apressada _ com os cabelos já não tão vermelhos assim _ eu escutava o velhinho se desculpando com o guarda, pedindo informações sobre o que estava acontecendo e perguntando qual caminho ele teria que fazer para chegar à estação. Eu só escutei a resposta do guarda sobre o melhor caminho alternativo a percorrer.
Tive que dar uma volta desgraçada e, resultado, cheguei CINCO minutos atrasada na Tutor Class, botando os bofes pra fora e tremendo que nem vara verde. Expliquei ao professor a razão do atraso, me desculpei mil vezes.
E ele logo disse que tudo bem, às vezes os londrinos são surpreendidos por esses bloqueios repentinos nas ruas. E acrescentou: mas quando isso acontece geralmente é tentativa de bomba, um crime grave ou alguma obra, num caso mais simples.
Eu realmente evito pensar que a razão do bloqueio possa ter sido alguma das duas primeiras citadas pelo meu tutor e prefiro acreditar que se tratava de uma obra qualquer.
Quando cheguei em casa _ nesse quarto que agora sou obrigada a chamar de casa _, finalmente entendi que aqui não se pode dar sorte ao azar.
Ou seja: na dúvida, DON'T CROSS THE LINE.
Se o seu "tutor" diz que quer te ver às 9h15, isso significa que ele REALMENTE estará na salinha te esperando pelo menos desde às 9h14. Ou seja, aquele negócio de atrasar só cinco minutinhos não cola.
Mas isso ainda é novo e o meu estranho estado de espírito de eterna preguiça desde que eu cheguei aqui me permitia atrasar pelo menos dois minutinhos. Só que nesta semana a coisa ficou feia e eu realmente tive que correr.
É importante lembrar que a Lei de Murphy funciona com toda intensidade quando você está morando fora, desesperada, triste, inquieta, cheia de dúvidas. Claro que no dia da minha Tutor Class a polícia de Londres resolveu fechar TODAS as ruas nas redondezas da Euston Station.
"Tá de sacanagem", eu falei baixinho em português para um chinês do meu lado, assustadíssimo com a abordagem na minha língua nativa. Corrigindo-me logo em seguida, perguntei ao sujeito se ele sabia o que estava acontecendo. Nada.
Todos os policiais estavam lá do outro lado da rua, a pelo menos dois quilômetros. Olhei para um velhinho inglês do meu lado, que também não entendia o que estava acontecendo. Como se fóssemos cúmplices, resolvemos os dois atravessar a linha. Puxa, a estação estava tão pertinho, estávamos atrasados, sabe como é...
Pois bastou dar dois passos e uns três policiais britânicos apareceram num passe de mágica. Um deles olhou fixamente para mim e, correndo, na minha direção e na do velhinho, gritou: GO BACK........
Eu gelei. Virei as costas correndo e fiquei imaginando o pior:
a) ele vai atirar;
b) ele vai me multar (quase tão ruim quanto a primeira alternativa);
c) ele vai pedir meu passaporte e eu não tenho nenhum documento aqui;
d) ele vai gritar puto comigo e eu não vou entender nenhuma palavra do que ele vai dizer (só um pouco melhor que a letra a).
Mas... Enquanto pensava em tão nefastas possibilidades eu também andava apressada para que não houvesse tempo de o guardinha chegar perto de mim.
E eu sabia que o vovô inglês estava do meu lado. Éramos cúmplices. Olhei para o vovô, mentalizei em português e tenho certeza que ele entendeu: "Fofo, faz um favor pra mim... Fica aí conversando com o guardinha, distraindo-o, enquanto eu volto correndo, atravesso de novo a linha e sumo daqui em dois segundos. Afinal, você é um senhor inglês, ele vai achar que você só atravessou a linha porque está gagá e não vai acontecer nadica de nada com você. Já comigo...".
Pronto. O vovô entendeu. Acho até que ele me fez um sinal. Run, Lola, run. The situation is under control.
Enquanto eu andava apressada _ com os cabelos já não tão vermelhos assim _ eu escutava o velhinho se desculpando com o guarda, pedindo informações sobre o que estava acontecendo e perguntando qual caminho ele teria que fazer para chegar à estação. Eu só escutei a resposta do guarda sobre o melhor caminho alternativo a percorrer.
Tive que dar uma volta desgraçada e, resultado, cheguei CINCO minutos atrasada na Tutor Class, botando os bofes pra fora e tremendo que nem vara verde. Expliquei ao professor a razão do atraso, me desculpei mil vezes.
E ele logo disse que tudo bem, às vezes os londrinos são surpreendidos por esses bloqueios repentinos nas ruas. E acrescentou: mas quando isso acontece geralmente é tentativa de bomba, um crime grave ou alguma obra, num caso mais simples.
Eu realmente evito pensar que a razão do bloqueio possa ter sido alguma das duas primeiras citadas pelo meu tutor e prefiro acreditar que se tratava de uma obra qualquer.
Quando cheguei em casa _ nesse quarto que agora sou obrigada a chamar de casa _, finalmente entendi que aqui não se pode dar sorte ao azar.
Ou seja: na dúvida, DON'T CROSS THE LINE.
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