quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O homem, o estalo (My 'click') - Para Stefan

Na primeira declaração de quase amor (era quase porque só veio a ser inteira dias depois), disse-me sentir "estalos em neon" ao me ver.
A prática do amor nos faz inventar nomes engraçados (porque amor é graça) e então eu virei o "Estalinho".
Ele me estala. Estalo por ele. Estalamos.
Por ele _ e por causa dele _ eu produzo sons. Eu quebro, espatifo, explodo. Me espremo.
Fiquei intacta por anos. Agora, com ele, eu simplesmente estalo.
Ele é o algo em mim que faz o som oco, o eco.
O céu da boca que estala com a língua.
A taça repleta de vinho tinto estalada freneticamente pela impaciência dos dedos das mãos.
O riso estalado da criança.
A chuva inesperada que estala.
O estalar da guerra.
O desejo, que ardente e longe estala.
Ele é um grito novo que me quebra e me refaz.
Venha logo ver o Estalinho.
E hoje, homem, tenho que dizer-te: EU TE ESTALO.
Em neon.



"Os homens de barro quebram, os de pau corrompem-se, os de vidro estalam, os de cera derre­tem-se" (Pe. Antônio Vieira)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Do we speak the same language? OU As "portugas" da Staveley Close

Não tenho mais dúvida sobre a existência de uma sincronia energética no universo, ainda que eu não saiba a essa altura da vida se sou budista, espírita, cristã.
Não sigo nenhum rito religioso, não canto, não sei balbuciar "rezas" formais _ exceto aquelas conversas estranhas comigo mesma e sempre inconscientemente direcionadas a alguém no universo. Mas sei entender alguns sinais e, não sabendo exatamente de onde eles vêm, prefiro sempre achar que eles vêm lá de cima. Melhor que achar que vêm debaixo (essa coisa de perspectiva conta muito, sabe?).
Considerações astrológicas, geológicas ou teológicas à parte, o fato é que vim morar aqui na Staveley Close, em Londres, porque eu precisava conhecer duas "gajas" portuguesas. Anna e Catia.
Primeiro conheci Anna. Por acaso. Comentei com uma holandesa que eu estava à procura de apartamento, uma luta ingrata em Londres. A holandesa falou para portuguesa (que na verdade é metade canadense, metade portuguesa, um quarto francesa e 0,000025% inglesa)que uma brasileira estava procurando flat. A portuguesa me chama para uma conversa. Vou com a cara da rapariga de imediato. Dois dias depois ela me convida para vermos uma casa. As duas entram "no sítio", se olham e pimba: "Precisamos morar aqui". Foi automático. Chegamos à mesma conclusão, rapidamente.
E assim aconteceu. Catia chegou duas semanas depois.
Na sucessão de sinais, descubro que o telefone da Anna é o telefone da casa dos meus pais. Dias depois, as duas me contam que as duas melhores amigas delas, em Portugal, eram a Maria e a Lúcia. E, agora, elas têm o pacote "dois em um" _ olha eu aqui, com o nome composto escolhido por papai e mamãe.
Catia é apaixonada por música brasileira. Bossa nova. Elis é sua preferida. A minha também.
Anna adora gim. Minha bebida favorita. (A segunda é whisky, também na lista das preferidas da Anna).
Em menos de um mês conseguimos estabelecer uma espécie de rotina socialista na casa: "Posso comer um tomate seu e depois você pega se quiser uma maçã? Você me empresta hoje o seu vestido? Olha, tenho um gravador, se quiser usar na sua entrevista. Estou precisando de dinheiro. Me paga na semana que vem. Vou preparar o jantar. Já comeste? Vamos fazer uma sopa? Eu tenho abóbora; você, as cenouras".
Rejeitando a "mais valia", assistimos a Grey's Anatomy e House juntas e discutimos sobre o futuro do mundo. Se Marx e Engels pudessem nos contratar para o staff de uma campanha política, estariam feitos. Adeus Obama, adeus McCain. O mundo acreditaria de novo num final feliz para a luta de classes e num modelo de poder tripartite.
Falamos a mesma língua. Não exatamente. (Por favor, nunca diga que está 'procurando um bico' quando estiver em Lisboa. Evite também comentar que está usando o "broche" da vovó, seu preferido. Se quiser comprar calça jeans na terra de Dom João, diga calça de ganga. Domingo é dia de ir à "pixina". Guarda-fax para uns, ou guarda-fatos para outros é um jeito interessante de dizer "guarda-roupas". Os putos ficam em bichas na escola. Parece estranho, mas ficam, lá em Portugal. Fish é peixe só em inglês. Se o cara é giro, vá adiante porque a aventura vai valer à pena).
Acho que a vida vai ser assim: Anna vai se casar com um gajo e morar no Chipre, numa casa simplesmente estonteante. Vai ter dois filhos. Lindos. Eu e Catia vamos sempre visitá-la no Natal.
Catia vai estar morando no Brasil. Primeiro, vai passar um tempo cantando bossa-nova. Vai fazer sucesso lá, achar um gajo brasileiro e morrer de paixão. E tesão. Depois de algum tempo, apesar de amar música, vai decidir voltar para a Biologia Molecular. Será convidada pela USP para desenvolver um projeto revolucionário no tratamento de câncer.
Eu... vou estar aonde mesmo? Não consigo imaginar. Só sei que vou estar com o meu "petusco", com a Eduarda ou o Joaquim, provavelmente andando de bicicleta na Patagônia. Talvez a gente também consiga levar adiante o plano de comprar a Land Rover e andar mundo afora com nossos "miúdos". Só sei que vamos estar juntos.
E que teremos compromisso no Natal.Ou no Ano Novo. Ou na primavera.
Mas ninguém pode ficar muito tempo sem saborear os Pastéis de Belém.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Bike Accident and Credit Crunch

Comprei uma bicicleta. Vermelha.
Não dá pra descrever a sensação de liberdade de uma pessoa de bicicleta numa metrópole, especialmente se a pessoa em questão veio de São Paulo.
Hoje, particularmente, deixei a bike em casa. Tinha que assistir a uma Conferência, precisava chegar cedo, etc, etc, etc.
Na volta, resolvi caminhar. Vim pensando nos efeitos do credit crunch na minha conta bancária.
Nunca fui do tipo de gente que dá importância exacerbada a dinheiro, mas perder muitos Reais em uma semana dá um frio na barriga para quem vive em... LONDRES e não teve a brilhante idéia de transferir seu dinheiro para... LONDRES.
Enquanto sonhava com cifras e me desesperava, uma inglesa de colete verde limão despenca da bicicleta quase a meu lado.
Vejo duas pessoas correndo em direção a ela, em segundos. Corro também.
A cabeça jorra sangue, ela está meio inconsciente. Depois chora, se desespera ao ver as mãos totalmente vermelhas.
Uma italiana, que tenta ajudar, chama a ambulância. Disca e me entrega em seguida o celular dizendo que não sabe falar direito em inglês. Eu muito menos.
Pouco minutos depois, estou com o celular da italiana, falando com os paramédicos ingleses que nos orientam sobre o que fazer com o ferimento. Tento relatar ao ciclista inglês que socorreu a ciclista inglesa estatelada no chão o que os paramédicos recomendam que façamos com a "cabeça" dela. Testamos se ela está de fato consciente, perguntamos seu nome, idade, em que cidade vive.
Em cinco minutos a ambulância chega. Finalmente perdôo o excesso de barulho de sirenes em Londres. O sistema funciona de fato. Você liga, e em cinco minutos a ambulância chega. Talvez porque em Londres o número de bicicletas tenha aumentado consideravelmente e as ruas estão mais livres. E, sendo assim, é preciso mesmo ter mais ambulâncias para socorrer prontamente os acidentados de bicicleta.
Meu momento E.R dura pouco, mas é altamente reflexivo.
Eu pensava em credit crunch e o inusitado acontece à minha frente.
Andei mais um pouco, ainda em estado de choque.
Hoje, havia deixado a bicicleta vermelha "estacionada" em casa.
Sinto-me reconfortada, por alguma razão.
E consciente de que tombo na conta corrente não mata.
Já os outros, esses são outra história.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

The Tenants and 1000 problems

Morar em uma casa aconchegante muda de forma significativa a qualidade de vida de qualquer ser humano triste (ou seja, estudantes sem dinheiro) em Londres.
Ainda que, na primeira semana, você perceba que duas bocas do fogão não funcionam.
E que, na segunda semana, o chuveiro não te ofereça mais água quente.
Você ainda duvidará da alegria do seu lar (Home, sweet home?????) quando o "landlord" desaparecer logo após a assinatura do contrato e um enorme colchão de molas tortas passar a ser parte decorativa do living room.
Alguma incerteza há de pairar sobre a sua cabeça sobre o real mmomento de harmonia em seu novo cantinho caso a sua cama (da Ikea, claro) despenque inesperamente numa gostosa noite de sono.
Mas a vida está aí para testar nossa tenacidade. Diariamente.
Ainda que a gente ache isso um pouco demais.
Vale tudo em nome da tão almejada felicidade. E viver numa boa casa em Londres, acreditem, é sim sinônimo de felicidade.
Vale tentar não se irritar porque o freezer parou de funcionar e ninguém na casa pode comer carne, por exemplo. Nem peixe. Nem camarão. Nem tomar cerveja gelada. Esqueça pizzas, qualquer tipo de congelado. Mesmo os maravilhosos, baratos e práticos bolinhos de salmão. Não pense em Yorkshire Pudding. Você não os terá, com o freezer fora de ação. Sorvetes estão fora de moda. Não sofra.
Não vale se irritar quando os tenants esquecem luzes acesas, máquina de lavar ligada, máquina de lavar louças idem, portas abertas, pilhas de pratos sujos na cozinha.
Esqueça também (ou sublime, se quiser dar um ar psicanalítico para esse seu novo momento vivendo no tão caloroso lar) o barulho frenético dos fire alarms quando você está preparando o seu delicioso jantar (sem carne, sem peixe, sem camarão).
Problemas por que seu cartão de crédito do Brasil nunca chega no seu novo endereço (sua linda casa nova)? Forget it. You have a new house.
Ansiedade por que o cheiro de gás na entrada da casa está forte? Não tema. A British Gas vai chegar em dez minutos, dizer que você poderia ter morrido e cortar em questão de segundos a água quente.
Ah, e o fogão (que depois de três semanas finalmente foi substituído pelo landlord) não terá utilidade nenhuma pelos próximos quatro dias.
Lembre-se: tenacidade.
Eu achei que era pegadinha. Sério. E que a sucessão de problemas podia ser algum erro seríssimo nos randômicos mecanismos divinos. Mas não. Parece que é só o retrato do péssimo serviço londrino e algum reflexo de como as pessoas aqui lidam com "contratos sociais" (viva a Sociologia).
Tenacidade.
Sobretudo em Londres.
Mas eu vivo numa simpática casa. E, mais que isso, tenho os meus flatmates. Em especial, agradeço por dividir a casa com "raparigas" que vieram de terras conhecidas: Portugal.
Tenho pessoas que me convidam para pegar maçãs aos sábados, tomar caipirinha na sexta.
Novos e potenciais amigos que me incluem no Sunday Roast de domingo.
"Gajas" que assistem Grey's Anatomy ao meu lado _ no nosso sofá vermelho todo manchado.
Tenho alegria de viver, ainda que tudo às vezes pareça muito trágico.
Mas estou em Londres. E aqui, agora, é preciso ter tenacidade.