Em Londres, há sempre um elemento surpresa - para o bem ou para o mal.
Quando eu receio cair na melancolia, algo novo acontece.
Nesta sexta-feira - dia dos namorados, diga-se de passagem - o inusitado foi um convite de Anna Barros, amiga, cientista, housemate, para visitar uma sala inusitada (fechada ao público e apenas acessível a cientistas/pesquisadores) no Museu de História Natural de Londres.
Fui, óbvio. Inicialmente meu espírito era observar uma sala - cheia de fósseis, claro - usada na Segunda Guerra como bunker. Todo o museu foi um bunker na Segunda Guerra. Ou seja, meu genuíno interesse era político. Como sempre.
However, houve uma reviravolta após minha chegada ao local.
Primeiro, uma simpática professora inglesa, coordenadora do setor de Mamíferos - sem nenhum trocadilho -, nos recebe na porta do museu.
Descemos para um porão meio assustador, repleto de labirintos. O cheiro me lembrou o do laboratório de Anatomia da Faculdade de Fonoaudiologia (1996 depois de Cristo), cuja breve experiência com formol, órgãos e corpos humanos foi suficiente para me mostrar que aquele não era um caminho profissional que eu devesse seguir.
A simpática inglesa, rápidíssima nas palavras, cheia de ironias e trocadilhos científicos na fala, pergunta se alguém na sala não tem nenhuma familiaridade com os termos biológicos, com Arqueologia, Paleontologia. Inibida, sou a única a levantar a mão. Explico que sou jornalista, amiga da Anna, e estou ali movida apenas pela curiosidade. Todos parecem me perdoar, mesmo sendo uma completa estranha no ninho.
Começa o tour científico.
O porão é cheio de armários fechados, que parecem de alguma forma uma biblioteca de ossos. "Já leu esse?" É exatamente com a naturalidade de quem busca clássicas preciosidades literárias numa biblioteca qualquer que ela fala sobre fósseis encontrados há 200 milhões de anos, como se isso fosse logo ali. Começo a tentar fazer as contas e me perco. Pego um exemplar minúsculo (minúsculo mesmo) de um dente de um mamífero que foi o ancestral das baleias. Data de nascimento: 150 milhões de anos antes de 2009.
Entusiasmada, a cientista do Museu de História Natural vai abrindo armários, explicando milhões de coisas sobre a Era X, Y, Z(Mezozóica? Paleozóico?). Os estudantes (de Masters e PhD) parecem perplexos, o que me leva a acreditar que aquilo tudo deve ser MUITO importante. Digamos que o equivalente, para quem gosta de literatura, seria como receber um convite de um "ancestral" de Dostoevsky para entrar na casa dele e ver as "penas" que ele usava para escrever, a biblioteca particular dele, os manuscritos que nunca publicou. Emoção impossível de descrever.
Prosseguimos entre centenas de armários cheios de gavetas - e ossos - preciosas. Eis que em um armário está guardado o crânio de um provável ancestral dos rinocerontes (a professora explica que ainda não há indícios suficientes para comprovar quem foi o animalzinho em questão, mas os cientistas estão produzindo um "paper" a respeito). Idade provável do bichinho: 35 milhões de anos. E eu achava que minha vozinha, que partiu desta para a melhor com 96, era uma heroína.
Passamos por um setor meio estranho, em que ela mostra "vestígios de gramas" encontradas no intestino de alguns mamíferos - claro que há milhões de anos. Eu penso que aquilo deve ser uma maconha poderosa, mas evito fazer qualquer comentário. Ela explica sobre a evolução do esôfago, porque precisamos ter algo "comprido" entre o estômago e a boca e, em seguida, abre uma coleção pré-histórica de coco. Isso é novo pra mim. Os cientistas estudam coco antigo para ter algum indício sobre a evolução das espécies. Ok, tem gosto para tudo, inclusive na Ciência. Os estudantes pegam o coco. Eu me recuso. Não sou cientista, sou a única jornalista do grupo. Não preciso pegar coco.
Quando eu começo a me entusiasmar com o tesouro científico - tirando a parte do coco -, o inesperado acontece. Ela abre o armário "Charles Darwin Collection - Beagle Voyage". Os estudantes tremem. Eu sinto que agora é o apogeu da nossa visita. Ela abre algumas caixas e nos deixa tocar alguns fósseis, depois que uma bióloga britânica, quase chorando, pergunta se pode passar o dedinho naqueles ossinhos. O fóssil em questão é de uma espécie gigantesca do bicho-preguiça (Malloton) que Darwin coletou na viagem feita a bordo do navio Beagle (1831-1836) para os Galápagos e América do Sul. Começo a entender a razão da falta de fôlego dos estudantes. A tal coleção é parte da inspiradora obra "A origem das espécies", talvez mais importante que a Bíblia. Me emociono. E passo a mão no avô do bicho-preguiça gigante. Estou ali em frente ao armário do Darwin. Sacou? Deu pra entender?
Depois ela mostra uma coleção de cérebros de baleias - divertido, mas tudo fica pequeno depois da coleção do Darwin - e o tour termina com a exposição de uma coletânea de fósseis de cetáceos (golfinhos, baleias, etc). Incrível. Ela mostra como foi a "evolução" ou "adaptação" dos dentes dos cetáceos - até eles virarem de fato baleias e golfinhos. Realmente incrível. Primeiro comiam plantas aquáticas (dentinhos mais suaves, arredondados). Depois, começaram a comer peixinhos (dentes mais afiados). Enfim, a natureza é mesmo perfeita. E não há como duvidar da teoria da evolução das espécies. Ela está ali, catalogada. Na sua cara. Evidente.
Fico pensando nas coisas que o ser humano devia mudar no próprio corpo para "aperfeiçoar" a vida no futuro. Imagino o dia em que os meus herdeiros genéticos vão olhar o fóssil do meu dedão do pé e pensar como era atrasada essa coisa de ter unha encravada. Um dia isso vai mudar. O corpo, aos poucos, vai provar para a unha do meu dedão que não existe espaço suficiente para ela crescer como bem entende - assim como o estômago provou para o corpo que ele precisava de algo intermediário entre a boca e surgiu, então, o esôfago. E eles (a unha e o dedão do pé) vão se entender, harmonicamente, no futuro. Talvez isso demore 30 milhões de anos. Não tem problema. A espécie vai ser melhor. Uma espécie sem unha encravada.
O mundo é mesmo incrível. A natureza é incrível.
E eu, incrivelmente, passei a mão nos ossinhos do tataravô do bicho-preguiça gigante descoberto pelo Darwin. Pode ser mesmo supreendente a vida em Londres.
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Um comentário:
Pelo que eu entendo, penso que a evolucao se vai fazer sentir comecando pelo dedo mindinho... ou seja, exactamente o dedao e sua unha encrada vao ter que esperar na fila. Puff. Que a natureza eh linda, eh, agora perfeita nao sei! ;-)
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